terça-feira, 8 de junho de 2010

E você?

"Escrever é fácil: você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio você coloca idéias." (Pablo Neruda)

"Escrever é mandar recado. Ler, entender o recado." (Dady Marlene)

"Escrever é cortar palavras." (Marques Rebelo)

"Escrever é, simplesmente, uma maneira de falar sem que interrompam a gente." (Sofocleto)

"É preciso escrever o mais possível como se fala e não falar demais como se escreve." (Sainte-Beuve)

"Escrever é lembrar-se. Mas ler é, também, lembrar-se." (Mauriac)

"O ato de escrever é a arte de sentar-se numa cadeira." (Sinclair Lewis)

"Somos todos escritores. Só que uns escrevem, outros não." (José Saramago)

"Escrever é ter coisas para dizer." (Darcy Ribeiro)

"Perdoe-me, senhora, se escrevi carta tão comprida. Não tive tempo de fazê-la curta." (Voltaire)

"O estilo há de ser fácil e muito natural." (Padre Antônio Vieira)

"Reescrevi 30 vezes o último parágrafo de Adeus às armas antes de me sentir satisfeito." (Ernest Hemingway)

"Uma história se conta, não se explica." (Jorge Amado)

"Escrevo para que meus amigos me amem ainda mais." (Gabriel García Márquez)

"Não basta escrever certo. Elegância e fluência também contam." (Josué Machado)

"Quem não lê não escreve." (Wander Soares)

"Cada um escreve do jeito que respira. Cada um tem seu estilo. Devo minha literatura à asma." (Fabrício Carpinejar)

"Escrever é um ato de liberdade." (Martin Amis)

"Escrever é uma forma de a voz sobreviver à pessoa." (Margaret Atwood)

"De escrever para marmanjos já me enjoei. Bichos sem graça. Mas para crianças um livro é todo um mundo." (Monteiro Lobato)

"Uma das razões por que escrevo é para descobrir como termina a história." (José Eduardo Agualusa)

"Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro." (Mário Quintana)

"Existem três regras para escrever ficção. Infelizmente ninguém sabe quais são elas." (W. Somerset Maugham)

"O autor escreve apenas metade de um livro. A outra metade fica por conta do leitor." (Joseph Conrad)

"Corrigir uma página é fácil, mas escrevê-la – ah, amigo! – isso é difícil." (Jorge L. Borges)

"Escrever não é fácil ou difícil, mas possível ou impossível." (Camilo José Cela)

"Escrever é deixar uma marca. É impor ao papel em branco um sinal permanente, é capturar um instante em forma de palavra." (Margaret Atwood)

"Eu escrevo como se fosse salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida." (Clarice Lispector)

"Para escrever bem é preciso uma facilidade natural e uma dificuldade adquirida." (Joubert)

"Escrever não é nada mais senão ter o tempo de dizer: estou morrendo." (Gaëtan Picon)

"Uns escrevem para salvar a humanidade ou incitar lutas de classes, outros para se perpetuar nos manuais de literatura ou conquistar posições e honrarias. Os melhores são os que escrevem pelo prazer de escrever." (Lêdo Ivo)

"Escrever é sacudir o sentido do mundo." (Roland Barthes)

"Escreve claro quem concebe ou imagina claro." (Miguel Unamuno)

"Não gosto de escrever, gosto de ter escrito." (Armando Nogueira)

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Quando eu tinha 17 anos

Quando cheguei aos 17 anos eu estava terminando o curso de Mecânica de Máquinas na Escola Técnica do Recife, uma instituição da Rede Federal de ensino técnico. A prova final foi a construção de um torno mecânico completo. Cada aluno foi incumbido de um componente da máquina. A mim coube o “cabeçote fixo”, a parte mais complexa do equipamento. Isto porque eu era CDF. E dos mais enrustidos. Como CDF eu tinha outros atributos. Nas férias, em lugar de refrescar-me nas águas verdes de Olinda, eu procurava emprego nas oficinas mecânicas do Recife. No contato com o quotidiano áspero do proletariado aprendi muito sobre o comportamento humano, desde a maldade mais perversa até as atitudes de solidariedade, de desprendimento, do sacrifício espontâneo e desinteressado. No ambiente rude das oficinas não havia clemência. Qualquer erro era punido no ato.
Os quatro anos naquela escola formaram o meu caráter. Ruim, devo dizer, mas um caráter. A escola ficava na margem do Capibaribe, onde o rio fazia uma curva. No lado oposto podia-se ver a Fábrica da Torre, com sua altíssima chaminé perfurando o céu. Bem na frente da escola, junto ao barranco da margem do rio erguia-se uma descomunal figueira sob a qual eu me sentava, nas tardes de sábado, à espera do por de sol. E por que nas tardes de sábado? Porque eu morava no alojamento da escola e só ia para casa, na cidade de Paulista, a trinta quilômetros dali, nas grandes ocasiões.
A minha vocação de CDF não me dava paz. Eu precisava praticar na arte à qual me dedicava e achava que as aulas não eram suficientes. Nos fins de semana a escola ficava deserta. A entrada e a saída do alojamento era livre. Não havia sequer porteiro. As oficinas eram localizadas em imensos galpões, divididas por especialidade. Descobri que a grande porta da Fundição tinha uma brecha pela qual eu podia passar confortavelmente. Sábados e domingos eu gastava o dia inteiro praticando a moldagem de peças. Naquela época a moldagem era feita em caixas de areia que, depois de receber o metal fundido – ferro, bronze, alumínio, antimônio e o que fosse – eram desmanchadas e a areia, uma areia especial, evidentemente, era reutilizada. Um dia eu moldei quatro peças, entre elas um disco em alto relevo com o rosto do Cristo com sua linda coroa de espinhos na cabeça. No dia seguinte iríamos fundir bronze. Em lugar de desmanchá-las deixei-as alinhadas junto aos moldes que haviam sido programados. O cadinho cumpriu seu percurso e derramou o metal líquido sob o meu olhar em êxtase. Enquanto o metal esfriava recebemos aulas teóricas do Mestre explicando a técnica usada em cada peça. Menos quatro. Abertas as caixas vejo o Mestre inquieto, prancheta na mão, andando de um lado para o outro, remexendo papeis, contando nos dedos, coçando a cabeça. Os alunos se haviam espalhado, esperando o encerramento da aula.
-- Aconteceu alguma coisa errada, Mestre? , arrisquei.
--Não, meu filho. Só não entendo quem foi que meteu essa cara do Cristo na programação!
-- Deixa pra lá, Mestre. Se não foi programada, distribui aí pros alunos!
E foi assim que eu ganhei um rosto do Cristo em bronze, com sua linda coroa de espinhos na cabeça.
Férias. Tempo de procurar emprego. Vai ser fácil. As oficinas já me conhecem. O diretor da escola manda me chamar e comunica que a Escola Técnica de Industria Química e Têxtil, que ainda estava em construção no Rio de Janeiro, estava oferecendo bolsas de estudo, abertas para todo o país. Pernambuco teria cinco vagas. Seria feito um exame de seleção e os cinco aprovados iriam para o Rio onde seriam submetidos a novo exame para aprovação final. Aconselha-me a fazer as provas.
Embarquei num heróico DC3 que depois de fazer escalas em Maceió, Aracaju, Salvador, Canavieiras, Cabrália e Ilhéus desabou sobre a pista militar do velho Galeão e caminhou, trôpego, até a estação de passageiros. Dalí, uma camionete Dodge, com carroceria de madeira, me levaria até a Rua Bela, em São Cristovão, meu novo alojamento. E a linha 56, do bonde Alegria, entraria na minha vida.

Luigi

Clarissa (Monica Noronha)


Foi aos 17 anos que a conheci. Linda. Rabo de cavalo castanho preso por um lenço colorido, do tipo que se usava também no pescoço. Calça jeans desbotada, sandálias sem salto, uma blusa estranha, meio hippie, colorida nas mangas, o resto azul e preto. E bordados, muitos bordados. Foram justamente os bordados que primeiro me chamaram a atenção, só depois eu olhei o meu primeiro amor. Tentei imaginar como seria o seu rosto com os cabelos soltos, mas o sinal de trânsito abriu, ela atravessou a rua e eu a perdi na multidão de Copacabana. Naquela noite sonhei com ela; a primeira de uma sucessão de noites em que tive medo de nunca mais vê-la. Avistei-a alguns dias depois, comprando picolé de chocolate na padaria. Não resisti e entrei. Trazia comigo apenas algumas moedas, que usei para comprar dois pãezinhos. Suava de pavor de ser descoberto em minha emboscada, pavor de não me sair a voz ao ser atendido. Sentia-me ridículo com os meus olhos incontroláveis a observá-la enquanto tirava o picolé da embalagem. À saída, derrubei uma pilha de biscoitos. O barulho fez com que ela olhasse em minha direção. Pela primeira vez eu quase morri. O meu rosto, naturalmente muito branco, queimava de nervoso, de vergonha e de raiva. Raiva de mim mesmo, raiva de quem eu pudesse culpar pelo desastre. E ela, ainda sorrindo, ajudou-me a recolocar os pacotes no lugar. Saímos juntos da padaria, descobri que se chamava Clarissa; combinamos de andar no calçadão no dia seguinte, de ir ao cinema no sábado à tarde. Convidei-a para o voley das quintas, as praias de domingo tornaram-se mais coloridas e seis anos depois nos casamos. Numa noite de chuva Clarissa não voltou para casa, nem telefonou para avisar que dormiria fora. Passou em casa de manhã para mudar de roupa – roupas que, gradativamente, foram desaparecendo do seu armário. Creio que na época eu já sabia que estávamos nos separando, mas nunca acreditei realmente que teria que reaprender a viver sem o seu sorriso. Um sábado ela me convidou para tomar chope e conversar fora de casa. Avisou que estava me deixando, sem dizer se dividiria o novo apartamento com alguém. Estava linda: vestido branco e preto com bordados nas mangas, o cabelo castanho preso com um lenço de seda. Pela segunda vez eu quase morri. Enquanto as palavras me estilhaçavam por dentro, sem querer entornei meu chope na mesa. Ela me olhou e tentou sorrir - como no dia da pilha de biscoitos, como nos muitos dias que vivemos juntos. Mas agora um sorriso sem cor, somente o esboço do seu sorriso. Pagamos a conta, nos despedimos com beijos no rosto, ela desceu a rua em direção ao novo endereço e desapareceu na multidão. Durante a semana passou lá em casa e levou consigo o que ainda havia de seu. Deixou as chaves escondidas entre as plantas da entrada e eu nunca mais a vi.

Carta a um amigo imaginário (Monica Noronha)


(repostagem)
Merda, eu aqui de novo escrevendo a você. Não vou falar sobre os novos resultados, todos péssimos. Melhor assim, danem-se. Acho que o que eu gostaria de contar é porque desisti. Quiseram me convencer a tentar de novo, e foi difícil resistir à tentação de “tentar”. Tentar o quê? Era agora ou nunca, e foi nunca. Então o problema é o que fazer com o tempo, o que inventar para ocupar o vazio. Já não tenho mais a paciência com o óbvio, meus livros e CDs e coisa e tal. E escrever tornou-se insuportável, a merda do diagnóstico me ronda a cada palavra, alma penada antes do tempo. E também não quero sofrer. Simplesmente a ampulheta foi virada e a areia está no fim, agora. Tempo, sempre o tempo.
Nem sempre tenho certeza de ter feito a coisa certa, quando decidi pelo silêncio. Confesso que têm horas em que a solidão é insuportável, mas pior do que tudo seria ver a compaixão nos olhos dos mortos-vivos que me cercam. A pena é o bagaço do amor. E também confesso os meus medos: medo da dor, medo da solidão, medo da morte, medo da vida. Medo de ser patético no meu medo, de não ser capaz de ir além do óbvio, de ser medíocre até na minha dor. Então prefiro o silêncio, e o abismo da solidão que me isola de tudo. Como agora. Coloco o pijama e sinto o peso dos tecidos sobre o meu corpo seco. Como se minha pele estivesse em contato direto com os meus músculos e os meus músculos expressassem nada mais do que minha insanidade, a fragilidade que carrego comigo por toda a vida, que faz com que respirar não seja simplesmente deixar o ar entra em meus pulmões e depois sair. Uma vez disse isso a um amigo e ouvi de volta que eu estava louco, que respirar acontecia sem querer, independentemente do desejo. Só os náufragos entendem que é preciso respirar. Foi quando entendi os meus espasmos de dor, que por toda a vida precisei lutar contra o meu próprio naufrágio.
Medo de deixar por aqui as poucas, pouquíssimas coisas que eu ainda amo – o que, precisamente? Talvez uns poucos livros, alguns CDs, e ninguém. Acho que isso é o mais assustador: ninguém. Porque é muito límpido para mim o quanto me afastei dos parasitas que povoaram os meus sentidos ao longo dos últimos anos. Mesmo antes de escolher a morte, acho que já sabia que por muito tempo estaria só. Ou melhor, que sempre estive. O que falo sem dor, diga-se de passagem, acho que até com certa sensação de triunfo por ter percebido a tempo que a solidão é inevitável. Porque tudo o que tenho agora é a dor que a roupa provoca sobre a minha pele, dor que somente existe porque ainda tenho nervos e a vaga consciência de estar vivo. E a sensação aguda de toda a minha solidão.
Talvez por isso a decisão de não tentar. Tentar para que? Acabar sonâmbulo em um quarto de hospital, o andar trôpego sobre os braços de outrem, agüentando, dia após dia, noite após noite, os olhares cínicos da piedade alheia, como se eu fosse moribundo em minha própria vida, um morto vivo. Como se estivessem mais vivos do que eu, em suas vidas sem sentido, uma seqüência encardida de dias inúteis, preenchidos com qualquer coisa. E todos os silêncios dos quais fujo há tantos anos, perfilados na porta de um quarto que não é o meu. A piedade alheia é insuportável, como é insuportável o consenso de lucidez que me cerca. No espelho vejo um louco em um mundo insano, um náufrago entre afogados, alguém que luta desesperadamente contra a vida e contra a morte em um mundo sem sentido. Por isto a morte, a morte consentida, a morte por escolha, faça muito mais sentido do que o viver por continuidade. Como a próxima dose, que bebo em sua homenagem antes de escovar os dentes e dormir.

sábado, 29 de maio de 2010

POR TRÁS DAS CORTINAS

Foi por trás das cortinas, dentro do quarto da Rainha, que Hamlet atravessou Polônio com um punhal, pensando tratar-se do Rei Claudio, assassino do seu pai.
Não gosto de falar de mortes, ainda mais quando são assassinadas. Tive que fazê-lo aqui, por força do dever, e foi apenas uma citação. Não voltarei a abordar temas dessa natureza pois isso seria a minha morte.

Foi por trás das cortinas do salão nobre do Palácio do Governo do Estado de Sergipe que ouvi o Governador Seixas Dória, convocado pelos militares em 1964, defender-se da acusação de comunista e subversivo. Impotente, ele se justificava com frases ingênuas, tentando demonstrar que não tinha nenhum envolvimento com a subversão e que sua única preocupação era fazer um governo digno e honesto.
Eu estava sentado por trás das cortinas aguardando uma entrevista com o Governador , a qual havia sido postergada justamente por aquela reunião imposta pelos militares. Testemunha involuntária dos acontecimentos, eu me sentia constrangido. Como podia um governador, eleito livremente pelo voto do seu povo, ser humilhado daquela maneira?
Encerrada a reunião, as cortinas foram abertas e, oh! ironia, foi servido um cock-tail. No momento em que me apresentavam ao Governador, um soldado garçom se aproxima e oferece um drink. Lembro-me até hoje das palavras do Governador, abatido mas sorridente:
-- O senhor aceita um cálice? Pode tomá-lo tranqüilo, não é o cálice da amargura.
No dia seguinte o Governador Seixas Dória era conduzido, algemado, para o presídio de Fernando de Noronha.

Foi por trás das cortinas do Teatro Santa Isabel que vivi uma das maiores emoções da minha vida. Era a minha primeira experiência como ator e estreava a peça “O Diário de Anne Frank”. O ensaio geral havia transcorrido de maneira perfeita. Diálogos, marcações, figurinos, entradas e saídas, contra-regra, luz, som, tudo havia funcionado à perfeição. Noite de estréia, eu andava eufórico de um lado para outro do palco, conferindo falas com os colegas, melhorando inflexões, ajustando figurinos, deixando palavras de incentivo para os mais temerosos. Espiei através da cortina fechada e me deparei com o espetáculo deslumbrante do teatro vazio, feericamente iluminado. Um ligeiro calafrio me percorreu a espinha. Nada mais natural, pensei. Uma estréia é uma estréia e eu sabia que até o Sergio Cardoso, quando interpretava Hamlet, ficava nervoso. Continuei no meu vai vem quando percebi um certo rumor que, aos poucos, ia se avolumando. Não dei importância e continuei na minha euforia. O rumor continuou subindo de tom e agora parecia um murmúrio que ia crescendo, parecia vir do céu, o volume cada vez mais alto, difuso, indecifrável. Suspeitei que viesse da platéia. Resolvi espiar por uma fresta da cortina. O murmúrio tornou-se ensurdecedor, o teatro completamente lotado de gente elegantemente vestida conversando em voz baixa que, para mim, naquele momento, parecia um trovão. Fiquei paralisado. As três pancadas de Molière, repercutindo no chão de madeira, tiraram-me do torpor. Ocupei minha posição no palco . As cortinas se abriram.

Por trás das cortinas de uma sala de visitas um pai descobre a frivolidade do filho, já adulto, e resolve dar-lhe um conselho. No terceiro ano do curso primário do Grupo Escolar João Vieira de Almeida, na Vila Maria, onde eu só cheguei aos nove anos, tínhamos um “livro de leitura”. Esse livro trazia pequenas histórias, lições de civilidade, feitos históricos e, cá e lá, algumas poesias. Esse livro sumiu, evidentemente, tão logo terminei o curso primário, mas dele gravei um soneto, que guardo na memória até hoje. O autor do soneto também se perdeu com o livro.
Vou transcrevê-lo, tal como o lembro:
TERTULIANO

Tertuliano, frívolo peralta,
Que foi um paspalhão desde fedelho,
Tipo incapaz de ouvir um bom conselho,
Tipo que, morto, não faria falta;
Lá um dia deixou de andar à malta,
E, indo à casa do pai, honrado velho,
A sós na sala, em frente a um espelho,
À própria imagem disse em voz bem alta:
- Tertuliano, és um rapaz formoso!
És simpático, és rico, és talentoso!
Que mais no mundo se te faz preciso?
Penetrando na sala, o pai sisudo,
Que por trás da cortina ouvia tudo,
Serenamente respondeu: Juízo.
Depois destas evocações eu não podia deixar de investigar alguma coisa sobre este soneto. Descobri que a memória me traiu em vários pontos:
1. O autor, cujo nome não lembrava, é Artur Azevedo
2. O nome do soneto, que eu julgava ser “Tertuliano”, é “Velha anedota”
3. Em lugar de “em frente a um espelho” é: “diante de um espelho”
4. Em lugar de “ouvia tudo” é “ouvira tudo”
5. Em lugar de “Serenamente respondeu” é “Severamente respondeu”

Assim é, colegas, se lhes parece. Como dizem os paulistas:
“O Mundo gira e a Lusitana roda”

Severino Mandacaru

sexta-feira, 28 de maio de 2010

O preto o roxo e o aguado!




Escolhi este assunto entre muitos que foram sugeridos pelos amigos do Depois da Oficina. Andava sem inspiração precisando de um empurrãozinho. Imaginei que ia ser fácil. Adoro cores. Em criança ao ser perguntada o que gostaria de ganhar, respondia sem titubear: Quero uma caixa de lápis-de-cor. Acabei com muitas caixas, tentando colorir a minha vida. A cor já foi até meu ganha pão. E agora que preciso delas para contar uma história, vejo tudo preto.

É isto, tudo preto, uma melancolia de fazer gosto. Quando me bate esta melancolia não sinto vontade de fazer nada, ou por outra sinto vontade de chorar uma semana. Cadê as lágrimas? Lágrimas são incolores! E o tempo? Para chorar uma semana é preciso tempo, no mínimo uma semana. Mas a vida não me espera, o céu de outono me acusa de azul anil.


O dever me chama, a máquina com a roupa branca já centrifugou é preciso colocar a roupa azul. É, não vai dar mesmo para ficar chorando, vou ter escrever meu texto. Deus do céu me deu um branco, as palavras não vem. Também quem mandou chamar-me de enfadonha.

Calma. Na dúvida mantenha a calma. Conte memórias, as pessoas gostam de saber da vida da gente, mesmo que não seja lá tão verdadeiro. Então mãos à obra.


Trabalhei num estúdio de fotolitos, que mais parecia uma versão pós-moderna da nave do Dr. Spock. Os equipamentos eram de última geração, tanto no design quanto na tecnologia. Os operadores trabalhavam de jalecos, luvas e pantufas impecavelmente brancos. Toda uma parafernália que era muito mais marketing do que funcionalidade.


Vendo aquele estúdio futurista, o cliente (com toda a razão, que sempre a tem) não queria nem saber, achava que me entregando a reprodução de um quadro de Pablo Picasso, por exemplo, obteria um impresso idêntico ao que ele tinha visto em Paris, em sua última temporada de ócio criativo.


Missão impossível. Um original, que não era tão original assim. A tela que mostra uma cor, a impressora de provas que imprime outra e o produto final que tem pouco a ver com o original. Na verdade eu só podia fazer oitenta por cento do trabalho, os outros vinte por cento gastava tentando convencer o cliente que computador não erra! Ou seja: o original em preto, aparece na tela para mim em roxo e a impressora de provas deixa o roxo um tanto aguado. Mas, na verdade o pintor tinha escolhido um azul marinho!


Meu tempo acabou, a melancolia continua, o céu já está sendo invadindo pelo amarelo do por do sol, não vou poder reler e agora só me resta convencer o leitor que terminei o texto!

FIM !

Miranda



sexta-feira, 21 de maio de 2010

UMA FLOR PARA MINHA MÃE

Memórias. Sempre memórias. Para que servem? Por que as contamos? Para quem as contamos? Se eu tivesse resposta para essas perguntas, eu jamais as escreveria. Memórias! Com algumas nos sentimos glorificados. Com outras, envergonhados. Muitas nos rejuvenescem - Picasso dizia que “levamos muito tempo para ficar jovens” - Outras apenas nos mostram o peso da senilidade. Contamos verdades.
E quem acredita nelas?
Eu não havia ainda completado os sete anos de idade quando caminhava com minha mãe pela calçada da Avenida Guilherme Cotching, na Vila Maria, na pequena metrópole que era a cidade de São Paulo daquela época. A avenida está lá até hoje, com o mesmo nome ridículo. Minha mãe caminhava com rapidez . Em dado momento, vendo que eu me atrasava, deteve-se e, virando-se para mim, fulminou-me com seu olhar meigo:
-- Anda depressa, filho!
Nesse exato momento, a um passo do lugar onde ela se detivera, e na mesma direção, desabou um enorme vaso de barro, espatifando-se no chão, espalhando terra e margaridas por todos os lados.
Minha mãe passou o resto da vida contando que a minha preguiça lhe salvara a vida.
Severino Mandacaru

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Fim de férias (Monica Noronha)



Meu Caro Bela
Há quanto tempo sem notícias de todos, e vocês sem notícias minhas! Quanta saudade, meu velho! Nem sei se esta carta chegará antes de mim, que em breve estarei de volta. Mas como consegui um portador, coisa difícil aqui no Paraíso, não resisti e resolvi escrever algumas breves linhas.
O que dizer desta maravilha que é a Pousada? Nem sei por onde começar. Depois de todo o tempo por aqui, são tantas as novidades que é difícil escolher um começo. E se eu esquecer alguma coisa também não tem importância, o que não faltará é tempo na minha volta para colocarmos os papos em dia. Manda logo o Bigode separar uma caixa de cervejas, o que não falta é assunto. Então vamos lá:
Primeiro, os Spreaficos: que gente acolhedora, meu Deus. Não teve um dia sequer em que o distinto Luigi não tenha reservado pelo menos uma horinha para uns dedinhos de prosa comigo. E olha que ele sim, é uma pessoa atarefada, ele a sua distinta senhora. Quando tocam o sino de despertar, lá pelas 5:00h, há muito eles mesmos já estão de pé e com o café da manhã preparado, para todos os hóspedes. Então comemos uma breve refeição frugal e saímos para o campo. Sua senhora não vai conosco porque tem seus afazeres no Paraíso, mas jamais se esquece do delicioso lanche do meio da manhã, cada dia uma iguaria diferente.
Nossa rotina: como acabei de contar, acordamos todos os dias com as galinhas, quer dizer, um pouquinho antes delas, porque quando elas acordam já querem logo ter o seu milho à disposição, então temos que estar todos de pé antes delas. Tomamos o desjejum preparado pelos Spreaficos (além de muito distinto meu novo amigo Luigi é um ótimo cozinheiro) e saímos ao campo. Nossas tarefas são simples, bem mais simples do que a rotina enfadonha que eu tinha quando era funcionário dos correios: aparamos a grama, cortamos mato para as vaquinhas, tiramos mel das colméias, colhemos frutas e verduras para o almoço e a sopa do jantar. Lá pelas 9:30h nos sentamos em alguma pedra para desfrutarmos do delicioso lanche e voltamos a trabalho. Terminadas as tarefas, voltamos para a sede do Paraíso, nos banhamos (detalhe, aqui não há chuveiro nem água quente, mas sim um cano que sai da parede, com uma deliciosa ducha) e nos sentamos à mesa para o almoço. À tarde saímos para uma longa caminhada morro acima, de onde nos extasiamos com o por de sol mais belo que já vi em minha vida. Findo o sol, uma branquinha da roça, a bela sopa do dia e cama. Estou revigorado, meu velho, com a disposição de um menino!
Bom, preciso terminar, o portado já está aqui ao meu lado. Volto no próximo final de semana, preparem uma bela feijoada que estou louco para comer umas gordurinhas! Convide todos, que essa vai ser por minha conta. Infelizmente não terei fotos para mostrar, minha câmera caiu num riacho logo na primeira semana, mas tenho tudo registrado na memória.
Um grande abraço, a você e a todos e todas
Ah, convide também o filho da puta do Bigode, vou pagar umas cervejinhas para o canalha. E não se assustem com a minha aparência, desde que cheguei por aqui não pude em barbear (o Paraíso não tem espelhos), emagreci acho que uns vinte e cinco quilos e tenho algumas picadas de insetos pelo corpo, mas a alma, ah, a alma está magnífica!
Do Seu
Vavá

quarta-feira, 12 de maio de 2010

COISAS QUE EU QUERO CONTAR

Quero contar os amores que vivi e os amores que perdi.
Quero contar as dores que sofri e os males que causei.
Quero contar de vales e cordilheiras por onde andei.
Quero contar de lagos e montanhas onde nasci.
Quero falar das árvores que plantei, dos filhos que criei e dos livros que não escrevi.
Quero contar as desventuras por que passei nos mares que singrei e nos ares que cruzei.
Quero contar como é dura a vida na caatinga, a pele calcinada pelo sol, o olhar de angústia na criança faminta, o riso amargo saindo das rugas do velho desamparado.
Quero contar o pôr do sol no São Francisco, o brilho da lua cheia no Capibaribe, o verde cristalino do mar além dos arrecifes.
Quero falar dos vinhos que bebi e da sede que sofri.
Quero contar como ressoa o apito da fábrica, como estala a batida intermitente do tear e como ecoa a voz alegre da tecelã.
Quero contar como vivem as almas penadas dos insetos assassinados nos campos de lavoura.
Quero contar fábulas. Para dizer cobras e lagartos, engolir sapos, desvendar o segredo da aranha, cantar como a cigarra, ser astuto como a raposa, ágil e faceiro como o serelepe, vaidoso como o pavão. E beber como um gambá.
Tudo isso quero contar. E antes que os tempos acabem, quero deixar pronto o meu epitáfio, que contará:
“Aqui jaz aquele que pouco contou.
Porque o que contou era verdade. E ninguém acreditou.
Aqui jaz aquele que sofreu a angústia de não saber contar
tudo aquilo que queria contar”.
Severino

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Sempre detestei crianças mimadas. Agora não detesto mais!


Dia desses fui lanchar num café que eu adoro. O Lugar é pequeno no máximo dez mesinhas mínimas de dois lugares. O cardápio não tem grandes pretensões, mas é por isso mesmo que me atrai. Tudo é feito lá mesmo e na hora. As garçonetes estão sempre impecáveis com um sorriso de quem gosta do que faz e é bem tratado pelos patrões.


Tímida entrei e sentei perto da porta, assim não correria o risco de esbarrar em nada, ser notada e ficar vermelha. Antes mesmo de fazer o pedido, me pediram para trocar de lugar e foi aí que eu sentei ao lado dela: Um tipinho mignon que não devia ter mais do que cinco primaveras. Usava um vestido roxo com capuz e estava sentada de fronte a sua vovozinha. Vovozinha que não tinha nem cabelos brancos, nem era gorducha e nem arrastava os pés. Avó para lobo-mau nenhum botar defeito.


Fiz logo meu pedido: Sanduíche de presunto parma, queijo brie e lascas finíssimas de maçã-verde na baguete. Minha vizinha de mesa, não sabia o que queria. A vovozinha, com uma paciência de avó oferecia de tudo e nada da menina se decidir. Tive que afastar a minha mesa umas duas vezes para Julinha (descobri o nome do tipo mignon de capuz roxo) ir ao balcão e ver o que a apetecia.


Finalmente a vovó fez o pedido e Julinha com medo de ficar sem nada, também pediu. Na verdade as duas pediram a mesma coisa: A vovó quis doce e ela salgada: uma cheesecake e um quiche.

O pedido da avó, já estava pronto e chegou antes. A menina Júlia não gostou nada e ficou indignada de ter um morango em cima da torta. Reclamou, bateu pé, fez birra e até chorou.


A avó, nem se abalou. Disse mais de cem vezes que aquele não era o pedido dela, que o dela não tinha morango e viria depois.


Julinha, menina, birrenta e mimada, de vestido roxo com capuz, tipinho mignon, inquieta que estava, começou a reclamar de frio. Na verdade algo a incomodava além do friozinho gostoso do ar condicionado.A guria só parou de reclamar, fazer birra, dar ordens à avó, que tinha paciência de Jó, quando sua torta de queijo chegou e sem morangos!


Ah! tá bom, vou confessar ela reclamou, mas, só mais duas vezes: a massa da quiche estava dura (parecia mesmo) e ela estava com sede, mas que a água viesse sem bolinhas. Advertiu.


Fiquei pensando porque a menina reclamava tanto e parecia tão séria e insatisfeita?


Acho que ela provocava a paciência da avó em busca de limites. Alguém naquela família teria que ter coragem de dizer-lhe um não redondo. Julinha estava cercada de covardes que ao menor beicinho morriam de medo e cediam. A menina ficava muito insegura. Quem conseguiria protegê-la, se não a protegiam nem dela mesma?

De repente, compreendi os colegas de infância mimados que tanto detestava. Coitados eram mimados e não tinham quem os protegesse, eram inseguros.


Termino como comecei: Sempre detestei crianças mimadas. Não detesto mais.


MIRANDA

terça-feira, 4 de maio de 2010

OS DESAFORISMOS DO SEVERINO

Se você vai sair para matar o tempo, ande depressa. Senão você não vai ter tempo para matar.

Ser pontual não é chegar na hora. Ser pontual é chegar cinco minutos antes da hora.

Meu caminho é iluminado. O problema é quando acaba a bateria.

Pernas, para que vos quero? Para caminhar.

Não estou nem aí ! Não faz mal, eu te espero.

As mulheres dizem: todos os homens são iguais. Eu sou homem. Eu sou igual.

Os homens dizem: todas as mulheres são iguais. Não. Você é diferente.

“Que não haja ofensa em minhas palavras”, diziam os romanos. È o que eu digo, sempre que falo besteiras.

Não pense que você me engana. Eu já estou desenganado.

Quero ser feliz. Mesmo que isso me custe a felicidade.

Sou presunçoso, mas ninguém me acredita.

A gente só faz as coisas quando não tem tempo.

O metrô inventou os bancos xifópagos. São azuis. Estão no Largo do Machado.

O pior cego é aquele que não quer ouvir. Além de cego é surdo.

Diga um impropério. Você ouvirá o eco.

Quando não souber o que dizer não diga nada.

Quero morrer enquanto estou vivo.

“Morreu porque amou” , leio num epitáfio. Ora, se o amor o levou à morte, pra que serviu?

“Morreu de amor” diz o poeta. É melhor do que morrer atropelado, digo eu.

Drummond de Andrade disse: "Escrever é trocar palávras". Eu não faço outra coisa. Então já sou um escritor. Ah! também vivo trocando pernas.


Recomendaram-me ler o livro "Para Escrever Como Um Leitor", de Francine Prose.
Tive que lê-lo de trás para a frente.

Dizem que sou um intransigente. Ora, deixem-me ser alguma coisa, que diabos!

Na linguagem popular do Nordeste, pelo menos em Pernambuco, existe uma expressão que encerra um poder de comunicação tão forte que, para mim, é insubstituivel: "torando um aço". É usada para indicar situações de medo intenso e suas formas superlativas, como pânico e terror. Significa que o indivíduo é capaz de cisalhar, com os esfíncteres, uma barra de aço de diâmetro não definido mas certamente proporcional à sua capacidade muscular. "Torar um aço" não é para qualquer um. É preciso ter coragem, não só para faze-lo mas, principalmente, para confessá-lo.


Severino Mandacaru

sábado, 1 de maio de 2010

Vou alí e já volto

Tenho pavor a despedidas. E quando parto para uma viagem, por mais curta que seja, começo logo a pensar na alegria da volta. Só assim consigo atenuar a tristeza que sinto ao afastar-me dos meus amigos. Gostaria que fossem comigo, temo perdê-los com a ausência. Fico imaginando os momentos de alegria inusitados que poderíamos compartilhar durante esse convívio, longe da rotina domésticas de cada um.
O desconforto de bordo não me permite maiores divagações. Servem-me um lanche numa tigelinha onde identifico uma espécie de salada cujo principal ingrediente são grãos de milho inteiros, felizmente cozidos. Nada mais adequado, penso eu. O lugar onde estou é a coisa mais parecida com aquelas gaiolas que se usam para transportar galinhas. Não posso me queixar. Eu não sou mais do que um bípede depenado.
Desço no Aeroparque, o aeroporto doméstico que eu não conhecia, próximo ao centro da cidade. Fantástico, em quinze minutos estou no hotel.
Buenos Aires está de mau humor. Não encontro mais aquela alegria que contagiava o turista. As pessoas correm pelas ruas falando pelo celular em tom áspero, gesticulando nervosamente, desferindo golpes no ar. O atendimento nas lojas não é cordial como outrora e os garçons parecem mamulengos.
Soçobrando entre medialunas e almendrados sinto falta do chopinho e das batatas fritas com os meus amigos, depois da oficina. Vou para o Ateneu e os encontro esgueirando-se por entre os livros ou espalhados pelas frisas e camarotes trocando olhares entre si como se não me vissem. Vago pelo palco. Volta-me a nostalgia das aulas. Invade-me o afeto que surgiu daquela convivência desprovida de preconceitos e de vaidades. Quero levá-los ao “El Buller”, em Recoleta. Lá tem cerveja de verdade. E poderemos rir e chorar.
Severino Mandacaru

sexta-feira, 30 de abril de 2010

O Filho da Professora



Claudia Bontempo


Ela era professora de uma escola pública de um subúrbio do Rio de Janeiro. Devia ter uns vinte e cinco anos, mas vestia-se com roupas circunspectas , talvez para dar menos leveza ao ofício de ensinar. Era severa e pouco sorria. No entanto, como eu conseguia ver a juventude encarcerada nas saias pregueadas abaixo do joelho, nas blusas de balon beges e por detrás de óculos de armações pesadas que usava, me afeiçoei a ela desde o primeiro dia de aula.

Munida com minha pseudo sabedoria sobre sedução de adultos, não media esforços para que gostasse de mim. Sentava-me na primeira carteira, ao lado de sua mesa; com todas as tarefas de casa cumpridas, apressava-me a responder primeiro as perguntas que fazia à turma, estava sempre pronta para apagar o quadro negro, a fazer ponta nos seus lápis, a carregar a pesada pasta que levava todos os dias. Mas algo em mim desagradava a professora, e por mais que me esforçasse, não conseguia que me olhasse com a bondade e o afeto de que eu precisava.

Aos poucos, apesar de todo meu empenho, percebi que ela definitivamente não simpatizava comigo. Quando era complacente, preferia ser com as meninas, cujas mães iam para a escola bajulá-la, carregando pratinhos de bolinhos e empadinhas, ou raminhos de flores do jardim que mantinham em casa. Sempre impecavelmente vestidas e penteadas, chegavam sorridentes e cheirando a amor materno.

Eu não tinha mãe. Quer dizer, tinha sim. Mas a minha trabalhava fora, e como eu que tinha 7 anos de idade, achava que nenhuma mãe trabalhava fora. Exceto a minha, e as professoras que ,certamente, tinham o aval de Deus para deixarem seus filhos aos cuidados de outros enquanto cumpriam o divino trabalho de ensinar. E eu carregava comigo tanto ressentimento, por chegar desgrenhada e não ter ninguém para ajeitar meu cabelo, por faltar-me um botão de camisa e não ter quem o pregasse, antes que a professora desse por falta, e pela solidão de não ter uma mão para segurar na minha até a porta da escola . Sentia inveja, de independer de mim chamar a sua atenção, enquanto ela distribuía afetos, ainda que comedida, às outras garotas, apenas pelo respaldo materno.

Mas um dia, o filho da professora foi à escola, à fim de ver um ioiô que o pai de uma das alunas trouxera dos Estados Unidos, e que era a grande novidade do momento. Quando o brinquedo rolava no ar, luzes coloridas acendiam e apagavam. Foi um alvoroço danado na sala de aula. Colocaram o menino sobre um banco com o ioiô na mão; ao mesmo tempo, todas as meninas batiam palminhas de falsidade, a adulá-lo, enquanto ele dava gritinhos de alegria. E de repente, a professora tinha largado o ofício para ser mãe, e não se continha e ria de adoração, por aquele instante de felicidade que o seu filho experimentava.

Foi então que resolvi me vingar. Fui a única a ficar sentada no fundo da sala a escrever coisa nenhuma no caderno, para que não se esquecesse do trabalho que a fazia deixar o filho aos cuidados de outro em casa, sozinho. Quis que lhe pesasse a culpa, ao mostrar o quanto o seu filho padecia na mão de alguma professora como ela.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Outono, Ruivas e Chocolate Branco.


Meu caro ou minha cara. Existe para você algum dia ou período do ano em especial? Sabe, aquele que te faz recordar algum fato marcante na sua vida? Ou até, algum que mesmo não fazendo sentido, lhe vem à lembrança? Pois bem, caso sua resposta foi ‘Sim!’, somos dois. Contudo, se o seu é relativo a aniversários, feriados ou algum relacionado ao horóscopo, não somos mais.

O meu período em especial se dá no mês de maio. Esta é a época de minha estação favorita. Embora no hemisfério sul o outono inicie no fim de março – pena as chuvas que dão adeus ao verão não serem mais tão poéticas como aquelas da canção de Tom Jobim – é em maio que ela nos fornece o clima mais agradável de todo o ano. É quando o céu fica mais azul e o sol combina perfeitamente com aquele friozinho. Sinto-me extremamente bem nestas condições.

Você pode estar questionando: Outono? Por que não o verão como todo mundo? Estranho, não? Pois é, vamos dizer que, na maioria das vezes, minhas preferências e comportamento não seguem conforme a grande maioria. Não sou aquele que as pessoas chamam de ‘Normal’. Aquilo que é diferente me atrai.

Por exemplo. Eu gosto mais do chocolate branco; Tá certo que eu adoro futebol, porém não torço pelo Flamengo ou pelo Corinthians; No carnaval, gosto mais do sossego – nunca vi desfile na Sapucaí e não fico saindo afoito nas ruas para brincar no tumulto; Prefiro rádio e leitura à televisão; Sempre lanchei no Bob’s e não no McDonald’s. A primeira coisa que reparo numa mulher não é a bunda, mas sim o sorriso (uma mulher ‘sem bunda’ é muito mais bonita do que sem os dentes, não?); Não sou muito de falar e nem sou chegado em cerveja; Detesto o calor e gosto do frio, pois me faz vestir uma de minhas roupas preferidas – o casaco; Até o meu nome é difícil de ser encontrado em outra pessoa.

Não aprecio este estilo de vida? ... Pelo contrário. Eu adoro o meu jeito. Entendo que em alguns momentos ser diferente pode trazer solidão e exclusão, mas temos que sabe lidar com isto. O importante é que sejamos autênticos e podemos descobrir até que não estamos tão sozinhos assim. Além do mais são nas diferenças que está a graça da vida, concorda? Imagine se todos andassem de roupa azul; se as bandas de rock fossem compostas somente por guitarristas; se na seleção jogassem onze ‘Camisas 10’ ou então se os homens só preferissem as loiras de olhos azuis. O mundo não seria no mínimo chato?

Caso não concorde com tudo o que mencionei e tenha uma opinião adversa às minhas preferências, não posso julgá-lo mal. Seria incoerente de minha parte após todo este discurso. Talvez, ser ‘Normal’ nem seja tão ruim assim.

Eu prefiro as ruivas. A você não? Que bom... Sobra mais para mim.


Emanuel Villanova

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Parabéns Brasília



No centro de um planalto vazio plantaram uma cidade. E, foi chegando gente de tudo quanto é lado. Gente estrangeira, gente brasileira. Trabalhadores.Meus pais vieram antes, recém-casados. Eu cheguei em 1964 e morei na Capital Federal até os oito anos de idade.

Em Brasília aprendi a andar, ler, escrever. E, a brincar. Fazia comida para minhas bonecas que viviam lambuzadas de barro, como eu. Brincava de pique-pega, pique-esconde, amarelinha. Gostava de cutucar tatu-bola no chão gelado da varanda de casa. Aprendi a andar de bicileta, e ganhei como prêmio um bombom do meu melhor amigo.

No Zoo andei de elefante, brinquei com filhote de leão e fiquei impressionada com as galinhas que eram atiradas, dentro do viveiro, para o almoço das cobras.

Fui pela primeira vez ao circo e não fiquei nem um pouco confortável quando o palhaço perguntou: Você faz xixi na cama? meu rosto ardia em vermelho, aflita podia jurar que a pergunta era feita para mim.

Fui ver a chegada dos restos mortais de D. Pedro I e abanei orgulhosa bandeirinha verde e amarela. Vi a Rainha da Inglaterra passar. E, também estava lá no desfile do Time Campeão da Copa de Setenta. Quando da chegada do homem à lua, estava de frente para a televisào, como o resto do mundo.

Aprendi a admirar o belo : Nos fenômenos da natureza onde o céu é de um azul profundo, o pôr do sol lindo e a chuva anda. E, nas construções : A Catedral, o Palácio do Itamarati, O Palácio da Alvorada, A Praça dos Três Poderes, o laguinho defronte ao Congresso Nacional com lindos cisnes. O vitral com 12 diferentes tons de azul da Igreja Dom Bosco.

Em Brasília tudo era brincadeira, fantasia, imaginação, lá eu vivi a minha infância, a melhor parte da vida, e aquela alegria trago comigo até hoje.

Miranda

sexta-feira, 16 de abril de 2010

ALDENOR VAI A RECIFE

Provavelmente, aquele que leu a história da minha viagem ao aeroporto de Fortaleza com o Aldenor, e acreditou nela, achou que eu tive alguma participação naqueles acontecimentos bizarros. Engana-se. Porque, duas semanas depois o Aldenor veio ao Recife para dar continuidade ao nosso trabalho e hospedou-se em um hotelzinho qualquer de periferia, no lugar do Grande Hotel onde sempre ficava. No fim do último dia de trabalho eu o acompanhei até o hotel, onde ficamos tomando uma cerveja, na esperança de encontrar soluções para os problemas do sub-desenvolvimento do Nordeste. Quando saí, a lua apareceu , sorrindo. Sua imagem refletida no Cais do Apolo era entorpecente. Impossível ir para casa. Fiquei perambulando pelas pontes, contemplando as sombras dos edifícios refletidas na maré alta.
A cidade ficou deserta. Decidido a ir para casa tomei o caminho da Ponte da Boa Vista. No sentido oposto, caminhando lentamente, aparece o Aldenor, todo sorrisos.
- Beduino, finalmente te encontrei!
- O que houve, Aldenor, você não disse que ia dormir?
- Perdi a carteira, os documentos, não sei como pagar o hotel, não tenho dinheiro nem para o taxi. Você me arranja algum trocado?
- Claro, mas o que é que você veio fazer aqui? Como ia me achar? Eu já devia estar em casa há muito tempo.
Aldenor baixou os olhos, colocou as mãos sobre meus ombros e falou lentamente:
- Eu sabia que ia te encontrar!

Luigi Spreafico

Uma Cigana na Parede



O deprimido é um ser rejeitado, até por ele mesmo. Ninguém gosta de estar deprimido, ou de estar ao lado de alguém deprimido.Eu sei o que é isto, já estive dos dois lados.


Para o deprimido tudo é difícil: o muro é muito alto, a dor é muito grande, a noite é muito longa.


Depois de seis anos, em morna, depressão, consegui, com muita luta, e com a ajuda do Dr. Freud e de sua fiel assistente (minha analista), sair deste estado da alma, que a muitos parece frescura, mas não é.


Deprimida havia me perdido de mim. Não me reconhecia mais, nem fisicamente. Meus cabelos não eram mais cor de mel, minhas roupas não me cabiam mais e o sorriso no rosto, marca registrada desde a infância, não estava mais lá.


Só uma coisa não mudou: a minha admiração pelo que é belo, pela arte.


Ainda bem tristinha, tomei coragem e fui viajar sozinha.


Hospedada em uma pequena cidade do estado de Nova Jersey (EUA), sempre que podia pegava o trem bem cedinho, parava em Hoboken (NJ), subia uma escadinha e pegava o path que me deixava na 33, bem no coração de Manhattam.


Não é fácil ser feliz, não é fácil ser livre. Passava os dias subindo e descendo aquelas ruas, sem saber muito bem o que fazer com tanto tempo e liberdade.


Perdida, não conseguia nem almoçar. Comprava duas barras de chocolate, uma "Pepsi" e, assim, passava o dia todo. Quando cansava, entrava numa livraria e, no ar condicionado, cercada dos melhores amigos de um deprimido: os livros, descansava.


Depois de umas duas semanas, já conseguia planejar alguma coisa. Fui ao Moma, ao Museu de História Natural, entrei em várias galerias de arte, no Soho. Almocei em Little Italy, um nhoque inesquecível.


Tão longe das minhas coisas, da minha, nada invejável, rotina de dona de casa, aos poucos fui me reencontrando.


O acaso, às vezes, me dava um empurrãozinho. E, foi por acaso, que eu vi uma exposição de quadros do meu pintor predileto: Amedeo Modigliani.


Naquele dia, pretendia ir ao Guggenheim, cheguei até a porta e resolvi não entrar, ia almoçar primeiro e voltaria depois se fosse o caso.


Indecisa, sem saber o que fazer e aonde almoçar,ainda pela Quinta avenida, andei mais dois quarteirões e vi uma fila enorme. Entrei na fila, para dar um tempo enquanto pensava.


Sorte a minha, a fila era para entrar no Jewish Museum, onde havia uma exposição das obras, dele mesmo: Modigliani.


De repente, fui invadida por uma alegria e uma felicidade que não cabem em depressão nenhuma.


Esperei a minha vez, entrei no museu e não tive mais medo de ser feliz.


Dei voltas e voltas naqueles salões repletos de lindos retratos. Os retratos, de Modigliani, são diferentes. Seus retratados ficam lindos com o olhar do artista. Ele é generoso. Os nus, apesar de terem escandalizado na época, são puros e sensuais. Isso já seria o bastante para que ele fosse o meu predileto.


Alguns meses mais tarde, de volta ao Brasil, passando por uma ruazinha, aqui mesmo em Botafogo, bem pertinho de casa, na porta de um brechó, dei de cara com um pôster que retratava uma cigana com uma criança nos braços.


Não via esta imagem desde os sete anos de idade. Um pôster igualzinho enfeitava a parede, da sala de jantar, da casa da minha infância.


Reconheci o traço, cheguei mais perto e li a assinatura: MODIGLIANI.


MIRANDA

sábado, 10 de abril de 2010

ALDENOR, O MESSIAS

O Aldenor morava com cinco mulheres. A esposa, a mãe da esposa, uma irmã da esposa, uma sobrinha e uma enteada. Não tinha filhos. Todas o amavam, e o serviam, e o seguiam como se fosse um novo Messias enviado especialmente para redimir mulheres. Sempre magnânimo, Aldenor distribuía sorrisos, afagos, carinhos, amor no seu sentido mais elevado e, sobretudo, justiça. Morava num casarão colonial onde a harmonia preenchia todos os espaços.
Trabalhamos juntos na Carteira de Crédito Industrial do Banco do Nordeste, em Fortaleza, na Rua Major Facundo, a rua das mariposas, onde o velho Severino curtia as noites com poemas, risadas e cerveja.
Minha base de trabalho era o Recife e eu viajava com freqüência para Fortaleza onde permanecia uma semana ou pouco mais. Eu me hospedava no hotel que ficava no final da rua Major Facundo, outrora aristocrático,
mas que ainda conservava sua posição: de frente para o mar.
Certa ocasião o Aldenor me disse:
-- Galego, na próxima viagem você não vai para hotel. Vai ficar hospedado lá em casa.
Agradeci muito, não queria causar incomodo , essas coisas, mas não houve jeito. Ao desembarcar o Aldenor estava no aeroporto me esperando. Fiquei contente, até porque não conseguia esconder uma curiosidade mórbida: descobrir como é que ele administrava uma casa com cinco mulheres. Foram dias proveitosos durante os quais eu tive a oportunidade de discutir com ele algumas idéias que eu vinha fermentando sobre o desenvolvimento industrial do Nordeste, e pude apreciar o amor que aquelas mulheres dedicavam ao seu Messias.
Solícitos ao extremo, tanto ele como sua esposa Maria desdobravam-se em atenções, cuidando dos menores detalhes para que eu me sentisse à vontade sem, contudo, exercer qualquer pressão. Cuidavam especialmente da cozinha. Entre as iguarias que a Maria preparava estava a paçoca, prato preferido do Aldenor. Embora tivesse esse nome a paçoca no Ceará não era a nossa conhecida paçoca, feita de amendoim e açúcar. Aquela era uma combinação de carne seca e farinha de mandioca socadas num pilão. Uma delícia! Todos os dias comíamos paçoca. Estou exagerando. Não era todos os dias. Dos oito dias que passei lá só comi paçoca em sete deles.
Certamente a memória organoléptica do Aldenor não era das melhores porque certo dia, na hora do jantar, o único jantar em que a paçoca não compareceu, ele virou-se para a esposa e disse:
-- Amôooor! Há quanto tempo você não faz uma paçoca, você poderia preparar amanhã, estou sentindo falta. E a paçoca retomou o seu curso.
Na véspera da minha partida – eu viajaria às seis horas da manhã – Aldenor declara:
-- Amanhã vou lhe deixar no aeroporto.
Recusei peremptoriamente:
-- Não vou permitir, vou chamar um taxi e...
-- Nada disso. Tomamos café com o bolo que a Maria fez...
-- Pior ainda. Não posso deixar que a Maria acorde a essa hora para fazer café, eu tomo no aeroporto.
A discussão não terminava, eu não conseguia persuadir o Aldenor. Eu me sentia realmente mal com o incômodo que estava causando e resolvi apelar
para um argumento que causasse impacto. E saí com esta idiotice:
-- Escuta, você não pode me levar no aeroporto amanhã, sabe por que?
Porque, para começar, vai chover durante toda a viagem, depois vai furar o pneu do carro e, se duvidar, você ainda vai bater com o carro na volta.
O Aldenor não dirigia, só andava de taxi e, assim, na manhã seguinte o taxi estava na porta. Embarcamos em silêncio, eu ainda constrangido. A Maria nos acompanhava.
Chegamos, retiramos a bagagem e ficamos sob uma marquise, a dois metros do taxi, fazendo nossas despedidas. Depois do último abraço, quando já estava para sair, percebi que uma chuva fininha começava a cair.
Lembrei-me das bobagens que eu havia falado e não deixei por menos:
Está vendo, Aldenor, já começou a chover. Agora só falta furar o pneu...
--PPPPffffffff...fffff...ffff...fff...ff...f...!
Todos olharam para o carro a tempo de ver o pneu traseiro direito baixando...baixando...
Só me lembro da voz do motorista, perfilado ao longo de seu carro:
-- Que boca!
Encontrei o Aldenor quando veio ao Recife, duas semanas depois:
-- Você não sabe mas naquele dia, quando voltava do aeroporto, a chuva engrossou e um carro que vinha numa transversal derrapou, e quase nos acerta.
Sei que alguém poderá não acreditar nesta história. Não me ofendo por isso. Eu mesmo passei a vida me perguntando por que foi que isso aconteceu. E se o escrevo é porque quero que fique registrado. Tenho medo de que um dia eu chegue a pensar que isso nunca ocorreu. Perguntem ao Aldenor.

Luigi Spreafico

quarta-feira, 7 de abril de 2010

A Hecatombe da Pracinha



Claudia Bontempo

Outro dia levei um pontapé no peito em Ipanema. Não foi de um pivete que ataca senhorinhas na rua para roubar-lhe os pertences. Nem de um pitboy treinando para ser feliz. Sequer me deixou com um hematoma roxo, visível a olho nu. Foi uma pancada mesmo na alma, que demorará muito para sarar e, toda vez que eu me deparar com o que me machucou, voltarei a sentir a dor da primeira vez.

Eu vinha de carro pela Visconde de Pirajá, ouvindo uma musiquinha no rádio, quando o trânsito começou a ficar lento ali pela altura da rua Vinicius de Moraes. Pensei que poderia ser da feira hippie, já que era domingo. Distraída, meio aborrecida, fiz umas continhas de cabeça, espiei as vitrines de algumas lojas e conversei com meus botões em voz alta, só para não perder o costume de falar sozinha de vez em quando.

Observei os sinais abrirem e fecharem várias vezes, fiz o movimento de pés entre a embreagem e o acelerador à exaustão, tamborilei com os dedos no volante. Era Ipanema engarrafada, numa tarde perfeitamente entediante.

Mas de repente, meu coração disparou e minhas pernas ficaram trêmulas. Comecei a suar e a ter calafrios ao mesmo tempo, meus olhos viam algo, mas não acreditavam no que estava ali à minha frente. Seria uma alucinação com certeza. Aquilo não poderia ter acontecido. Ninguém no mundo seria capaz de tamanha iniqüidade. Olhei em volta, a fim de ter certeza de que todos ao meu redor estavam tão horrorizados quanto eu. Mas só vi pessoas agindo como se nada estivesse acontecendo. Cada vez que me aproximava da Coisa, mas o mal estar tomava conta de mim.

Dizem por aí que na iminência do fim, fazemos um flashback de nossa vida, mas o que me veio à memória naquele momento foi a lembrança do meu primeiro beijo na boca; Estávamos na praia quando começou a chover, saímos correndo de mãos dadas, meu coração aos pulos de alegria, ao passarmos pela General Osório, ele me abraçou a fim de me proteger da chuva e nos beijamos , no ambiente bucólico da pracinha.

Voltei à realidade, antes que morte do meu sonho se apoderasse de mim. Confusa, cheguei a acreditar que estava diante de um ícone da arquitetura contemporânea, ou que talvez eu estivesse negando a praticidade do futuro, a sua ousadia ,o seu valor. Mas confesso que até hoje não me convenci e ainda estou a me perguntar; que mente perversa foi capaz de projetar a saída da estação do Metrô da Praça General Osório ?

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Somos felizes?!


O rosto curtido, provavelmente pelo sol do nordeste, rugas de quem trabalhou na lavoura. Usava um chapéu fantasia que ornava com os cabelos grisalhos na altura dos ombros.Camisa listrada de vermelho e branco, acho que era de cetim, e calça verde escondendo as longas pernas.. Deu uma última tragada na guimba, soltou a baforada e sorriu para mim. Era uma segunda-feira cinza de outono. O homem-da-perna-de-pau entregou-me um papel com a propaganda de uma tinturaria nova no bairro. Na verdade este é o final deste texto que pretende ser uma crônica.



Comecei a esboçá-lo quando levava minha filha mais velha á escola. Vi uma senhora com roupão de banho, indo, provavelmente para a hidroginástica. Era uma senhora elegante, que combinava perfeitamente com aquele roupão azul marinho de veludo, com um emblema em dourado, talvez um brazão de família, sei lá...


Foi esse o mote que me desencadeou o esboço para esta crônica. Vendo o roupão, na mesma hora, me lembrei, que outro dia, vi um senhor muito distinto, vestido num desses roupões atoalhados, bem do tipo dos oferecidos em hotéis cinco estrelas para atestar luxo e requinte.O senhor ia todo faceiro, acho que para a natação, passou por um garotinho que olhou para trás mais de uma vez incrédulo. O garotinho devia estar pensando o mesmo que eu e que você caro leitor. Que estranho, que despudor, passear por aí como quem sai do banho!


Deixei a menina na escola, o carro na garagem e sai para minha caminhada matinal. Vinha pensando no roupão. Lembrei-me de minha mãe que usava um roupão que naquele tempo chamava-se robe. Robe-de-chambre, um galicismo que quer dizer: vestimenta comprida para ser usada em casa. Na verdade o que minha mãe usava, quando nos acordava para irmos à escola era um peignoir – penhoar também do francês: peça de vestuário feminino, que se usa pela manhã ao acordar ou após o banho.


Mamãe nos chamava para a escola, depois se vestia e todos tomávamos o café-da manhâ, juntos. Café-com-leite e pão com manteiga. Sem culpa e sem calorias a mais ou vitaminas a menos.


Recapitulando, o roupão de banho, lembrou-me o robe, que me levou aos seis anos e a minha mãe. A sensação de segurança, de acolhimento, de felicidade. Uma sensação gostosa e que me levou para longe da crítica que eu pretendia fazer neste texto às pessoas que saem à rua de roupão. Na verdade eu não tenho absolutamente nada com isso, e então porque criticar! Talvez porque era uma segunda-feira cinzenta de outono e meu coração também estava cinzento.


E o moço da perna-de-pau do início do texto? Ele me deu um sorriso acolhedor, além do fato de estar trabalhando com alegria sob a chuva em condições precárias. Que motivos eu teria para tanta melancolia?