sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Balangandãs




Claudia Bontempo

Lourdinha nem tinha um corpo escultural, a bundinha era um pouco para dentro, nem rosto de princesa, o nariz aquilino denunciava a descendência espanhola. Mas a faceirice no olhar, o jogar dos cabelos quando falava davam um charme ímpar àquela tijucana . O irmão, Calixto, um tipo ciumento e musculoso, seguia seus passos como um cão de guarda e inibia os fiufius dos rapazes nas tardes de domingo da praça Sães Pena.

Todos se gabavam para ver quem seria o primeiro corajoso a convidar Lourdinha para a tarde dançante do Tijuca Tênis Clube. Enquanto isso,Juarez, um estudante do colégio militar, fora da confusão, bolava um jeito de chegar perto da espanholinha sem despertar a ira do peso pesado.

- Comida quente se come pelas beiradas.

E passou a segui-la de longe, pelas ruas do bairro, prestando atenção aos detalhes de sua rotina. A hora em que pegava o lotação para o colégio, o salão de beleza que fazia pedicure, a missa que assistia na paróquia com a família. Numa dessas idas e vindas, viu Lourdinha entrar em uma lojinha de presentes, sempre com o fortão do lado, mas sair sem indícios de compra e achou-a um tanto quanto amuada.

Juarez entrou logo depois no estabelecimento e, conversa vai, conversa vem, com a vendedora, perguntou-lhe qual o mimo despertara o interesse da moça. Ela prontamente lhe mostrou uma pulseirinha de prata cheia de balangandãs que tilintavam e brilhavam na luz. Achando que essa seria a oportunidade de ter um lugar ao sol no coração de Lourdinha, comprou o presentinho e pediu que entregasse na sua casa com um bilhetinho que dizia:

“ Meu coração bate por você na cadência do tilintar desses balangandãs, se quiser me conhecer coloque a pulseirinha e me espere no muro atrás da paróquia, hoje às seis da tarde”

Juarez foi para casa imaginando a entrada pela porta principal do Tijuca Tênis Clube de braço dado com Lourdinha trajando vestido de fustão e sapato de verniz. Dançariam a noite inteira diante dos olhares despeitados dos rapazes, na varanda talvez lhe roubasse um beijo. A boquinha, os cabelos, os olhinhos de Lourdinha.

No mesmo dia às seis da tarde, no muro atrás da igreja, um Juarez nervoso e excessivamente perfumado encontrou Calixto, de casaco e pantalona de couro, sacolejando o pulso com a pulseira de prata de balangandãs que lhe lançou um olhar lânguido. Só faltaram as castanholas.






quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Delírio

Em sua anástase, ressurgiu com alma nova. Mais puro, mais indulgente, mais humano. Antropomórfico, viu-se representado como um deus de oito braços abarcando um globo terrestre bífido que ele tentava manter unido. A seus pés, uma cártula indicava o seu destino. Sua dromofobia faria o resto. Temia ser considerado capto de mente e, antes que isso se confirmasse, mandar-se-ia para outros mundos. Novas terras, nova gente, novos ares. Novos sons, novos sabores, novos amores.

João Cândido Albino das Neves nunca se perdoou por ter nascido em Cabaceiras, aquele município perdido no semiárido paraibano. Não porque a cor da sua pele contrastasse com o tom chocolate do resto da população, conseqüência provável da erraticidade de algum holandês por aquelas bandas, mas porque não se conformava com o fato de que Cabaceiras, além da ridícula taxa de produtividade alcançada no cultivo da macaxeira, ostentava o recorde de menor índice pluviométrico do país. O que, segundo ele, não era verdade. Aquele estigma o indignava, e atribuía o fato ao erro cometido por um funcionário do IBGE, o qual, não acreditando no que via, inverteu os dígitos apresentados pelo pluviômetro no mesmo ano de sua instalação. A partir daí, conta a lenda, a engenhoca foi escalpelada pelos funcionários locais e o IBGE, - oh! têmpora, oh! mores, - passou a repetir o mesmo resultado ad perpetuam.

Cândido deixou sua terra natal em busca de um caldo cultural mais denso.
No Recife, passou noites sentado na balaustrada da Ponte Buarque de Macedo dissecando ossos imaginários de Augusto dos Anjos – Ah! Um urubu pousou na minha sorte!
A biblioteca da Universidade Federal de Pernambuco foi o seu cadinho de relíquias bibliográficas. Escritores coevos não lhe interessavam. Só demiurgos, e demiurgos não se fazem mais em nossos dias. No colofão de um tratado de semiologia encontrou o caminho para outras obras que o cativariam no estudo dessa ciência. Dedicou-se com afinco e tornou-se professor na matéria, notabilizando-se por afabular os eventos dos quais participava e encantar seus alunos com hipotiposes.
Sua heterotopia deu-lhe fama. Fama e tédio. Não suportando mais a monotonia em que se metera, ouvindo bolodórios daqueles piriricas o tempo todo, excogitou sair-se da enrascadela e demandar por novos ares. Deixaria os alunos com seu assistente, aquele samango lutulento e mendaz que não fazia outra coisa senão preparar pernadas para tomar-lhe o lugar. Pois agora o teria.

João Cândido sairia dali. Tornar-se-ia um paguro e usufruiria de todos os benefícios que a nova vida lhe proporcionaria. Esta parataxia o libertaria dos grilhões que ele mesmo se impusera. A palingenesia faria o resto. Aleluia! Aleluia!
Vestiu seu melhor terno e escolheu a melhor gravata. Dirigiu-se ao aeroporto. Comprou a passagem no primeiro avião e saiu em busca do amor. O amor!
O amor? A fatalidade do seu palíndromo levou-o a Roma.
E foi pedir a bênção ao Santo Padre.


segunda-feira, 18 de outubro de 2010

A Primavera de Suzaninha



Claudia Bontempo

Morávamos numa cidade muito pequena, cheia de passarinhos em que a vida passava devagar. Meu pai era funcionário da única fábrica do lugar e minha melhor amiga, Suzaninha, era a filha do gerente geral. Nossas mães eram amigas desde pequenas, mas tinham situação financeira diferente. D. Aparecida podia andar de vestido, sapato e batom comprados na capital. Nos finais de semana a família assava carne na churrasqueira que tinha em casa.

Quando chegou a primavera Suzaninha veio me falar toda prosa que ia se mudar. O pai tinha sido transferido para a sucursal e morariam em apartamento com direito a automóvel. Fui correndo atrás dela festejar a notícia com a família que estava toda reunida nos sofás da varanda. Os filhos todos em volta do pai orgulhoso pela promoção que mereceu. Um vai e vem de vizinhos para parabenizá-lo, a maioria funcionários da fábrica aproveitando uma boquinha nos quitutes. Os homens improvisando discursos, algumas mulheres chorosas já imaginando saudades, crianças no quintal se engalfinhando nas brincadeiras. À noite quando voltei para casa custei a dormir pensando na vida boa que esperava Suzaninha e como eu também queria para mim.

No dia seguinte, bem cedinho, fui chamá-la para a escola e entrei pelo portão aberto do quintal. Ouvi um choro baixinho perto da churrasqueira e espiei de longe. Dona Aparecida metida num vestido florido, tinha os cabelos louros desalinhados e as bochechas rosadas. Estava encostada no muro enquanto um rapaz, abraçado a ela sussurrava na sua orelha e limpava suas lágrimas com as costas das mãos. Ao lado dos dois um cesto cheio de mudas de violetas emborcado no chão. Fiquei com medo que me reparassem e corri. Mas voltei e chamei por Suzaninha.

O rapaz pegou o cesto, disfarçou e começou a plantar as mudas no jardim. D. Aparecida fingiu varrer o quintal. Minha amiga veio com cara de sono ao meu encontro. No caminho, ela agitada falava das novidades que viriam com a mudança, enquanto eu ia quieta. Na esquina da escola, estranhando a minha mudeza, perguntou se eu estava chateada com a sua partida. Estava também, mas naquele momento era a angústia da descoberta da tristeza de D. Aparecida que me deixava muda. Cena mais ruim de se ver. Menti para Suzaninha e disse que era só chateação pela sua partida mesmo.

Aquela foi a última primavera que passei com Suzaninha. Depois vieram outros donos para a sua casa que cimentaram o jardim de Dona Aparecida e fizeram piscina. O plantador de violetas eu nunca mais vi. Mas os passarinhos ainda ficaram algum tempo por lá.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

A Vida por dois Vinténs

A operação de resgate dos trabalhadores que ficaram soterrados numa mina do Chile está chegando ao fim, felizmente com êxito. Foi comovente. Trinta e três vidas estavam a 700 metros de profundidade, e o cenário montado para recebê-las na superfície da terra foi, merecidamente, proporcional. A imprensa do mundo inteiro está lá. O presidente do Chile acompanhou, dia após dia, a operação de salvamento e está lá para receber os mineiros e parabenizar a todos: salvadores e salvados. O presidente da Bolívia também compareceu para receber o único representante do seu país naquele infausto evento. A engenhoca montada para a operação, que levou apenas (!) 68 dias para alcançar o seu objetivo, funcionou a contento, embora a roldana que guia o cabo de tração da cápsula possa causar arrepios em qualquer estudante de engenharia mecânica. Cantou-se o hino nacional à exaustão. Estão salvos! Glória a todos!

Agora eu pergunto: O que é que leva o ser humano a confinar o seu semelhante
a 700 metros de profundidade para extrair de lá alguns trocados ?

                                                                                                                 Luigi Spreafico

sábado, 9 de outubro de 2010

O Colaminho

Acordou cedo. Tinha coisas importantes a fazer. Deu uma volta pela cozinha, tomou café vagarosamente, pensativo, analisando os obstáculos que encontraria pela frente durante o dia que se desenhava complicado.
Procurou o colaminho. Não o achou no lugar onde o havia deixado. Voltou-se para a mulher:

-- Você viu o meu colaminho?
-- Não.
-- Como, não? Ele não está onde o deixei.
-- Você nunca sabe onde deixa as coisas.
-- Claro que sei. Você é que mexe nas minhas coisas e depois não coloca no lugar.
-- Eu não mexi em nada do que é seu. Você se esquece, e depois vem cobrar de mim.
-- Eu me lembro perfeitamente das coisas. E não aceito essas suas insinuações.
-- Que insinuações? Eu não falei nada. Você está ficando maluco. Onde já se viu       amarrar uma caneta no pé da mesa?
-- Você sabe perfeitamente por que eu amarrei a caneta. Não pára caneta em lugar nenhum desta casa. Uma vez encontrei oito canetas na tua bolsa.
-- Você anda remexendo na minha bolsa?
-- Eu só fui procurar uma caneta. Encontrei oito!
-- Não grite assim comigo! Você só sabe reclamar. Não sabe onde larga as coisas e põe a culpa em mim!
-- Agora quem está gritando é você! Assim não é possível. Eu não agüento mais. Alguma coisa tem que ser feita. Onde está o meu colaminho!? Você está arruinando a minha vida! Se você ao menos tivesse a sensibilidade de parar de ciscar nessa cozinha e me ajudasse a procurá-lo. Onde está o meu colaminho? Eu me mato pra fazer as coisas direito, ainda se fosse em meu benefício pessoal mas não, não, é tudo pra você, pra família, tudo, tudo, eu já não durmo mais direito, não consigo me concentrar, as coisas desaparecem, não se acha nada, nada, eu me esforço, não penso noutra coisa, você vai acabar com a minha vida!
-- Por causa de um colaminho? Francamente!

                                                                                                     Luigi


domingo, 26 de setembro de 2010

Lição de Inglês



A professora era miúda. Curta e magra. Sua voz era meiga e suave, delicada como o seu corpo. Sussurrava poemas de William Blake – “tiger, tiger, burning bright / in the forest of the night ...”  – como quem canta uma canção de ninar.

A professorinha preocupava-se com a minha pronúncia e com a minha saúde. Trabalhando no turno da noite, minha pele havia adquirido um tom metálico fosco, parecido com o da prata já coberta pela pátina do tempo. A fábrica Bangu era o meu segundo emprego, depois da escola. Eu entrava às dez da noite e saía às seis da manhã. No caminho de casa eu parava sempre no mesmo bar e “jantava” dois ovos fritos e uma cerveja. Eu seguia o conselho que me havia sido dado pela professorinha:

--“ Eat many eggs!” , dizia-me sempre, e repetia a frase acenando-me e gritando do portão de sua casa, quando, terminada a aula, eu me afastava. Em sinal de reconhecimento eu me virava e levantava as mãos para o céu. Não sei bem o que aquilo significava mas pelo sorriso que via em seu rostinho magro percebia que ela ficava contente.

No meu jantar das seis da manhã eu sentava sempre numa mesa da calçada. As pessoas que passavam balançavam a cabeça e podia-se ler o que pensavam:

“Pobre coitado, começando a uma hora destas, imagina como estará quando chegar de noite”.

Um dia ela me falou de Deus. Eu, que considerava Deus apenas um amigo de infância, interessei-me, e perguntei onde ficava a sua igreja.

-- We have no church. We pray in the streets.

Passei a venerar a professorinha que rezava nas ruas, sem imagens nem templos.

Na flor da juventude, foi graças aos seus conselhos que sobrevivi por mais de um ano àquele regime de trabalho noturno que subjuga o homem à mais cruel solidão. Não havia passeios. Não havia namoro. Não havia festas. Não havia cinema nem teatro. Não havia sono. Não havia despertar. Não havia nada.

-- “Eat many eggs!”

Só havia a professorinha, dois ovos fritos e uma cerveja casco escuro. Todos os dias.

Luigi





quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Dever de Casa: Escrever

“Escrever” continua atual. Depois que o Severino simulou um ataque de demência por achar que, devido ao que já se publicou e se continua publicando não sobrariam leitores para ele, aparece no Segundo Caderno do “O Globo”, uma coluna de Francisco Bosco com, exatamente, esse título: Escrever.

Logo depois do destempero do Severino, Mônica Noronha tratou desse tema com seriedade explicando como e por que escreve. Debatendo-se entre o prazer da escrita e as obrigações que lhe são impostas pela profissão que exerce, Mônica dá uma importância elevada à contraposição publicações/ leitores, resigna-se por não poder escrever tudo o que gostaria , e encerra o assunto: “Então, que venha o possível”. Decisão sensata.

Na sua coluna Francisco Bosco cita o filósofo Giorgio Agamben: "Escrevemos para nos tornarmos impessoais".  Bosco explica: “Segundo o filósofo, cada sujeito é formado por duas dimensões, uma pessoal, outra impessoal. A pessoal é o Eu, a consciência, a identidade; o que em nós é constituído, sabido, reconhecido. A parte impessoal é o que, “em nós supera e excede”, é o que nos revela “que nós somos mais e menos do que nós mesmos”, é uma “zona de não conhecimento” em nós mesmos”. Depois de estender-se numa longa e detalhada interpretação das palavras do filósofo, Bosco conclui: “Para mim, é por isso que se escreve, ou, ao menos, é por isso que escrevo: para transcender os limites tediosos neuróticos do meu ser”.

Nunca pensei que fosse tão complicado.

Severino Mandacaru, por exemplo, que só ficava neurótico quando faltava cerveja, escrevia a seu modo – não precisava de papel – , cantando na praça de Glória de Goitá:


Eu canto, eu faço verso
Eu canto até mi sguelá
Eu rimo no desafio
Acompanho no ganzá
Eu canto gloza e repente
E galope à beira mar ...


Moço distinto se chegue
Meu canto é pra si escutá
Mostre que tem coração
Ajude um pobre a cantá
Tire do bolso um trocado
E bote no meu borná ...

Severino tinha suas razões. A vida dura na caatinga não lhe permitia maiores elocuções.
Creio que chegou a hora de dizer por que escrevo. E vou ser sincero:

Escrevo para me exibir. Para receber aplausos e vaias. Escrevo no centro de um palco, como um ator. Curvo-me em agradecimentos quando me aplaudem. Cubro o rosto quando me vaiam.

Escrevo para ser lido. Fico alegre quando descubro que alguém me leu. Não são muitos: Um colega aqui, um amigo ali. Um primo, um cunhado, um sobrinho e um neto. E eu mesmo.

Escrevo porque gosto de ler. Como leitor, quero saber o que penso. Se não escrever, não posso ler-me. Leio como qualquer leitor, fora do palco. Quando gosto, rio muito e aplaudo. Quando não gosto, vaio e rasgo tudo.

Escrevo porque vivi. E vivi bem. Não sei inventar histórias. Escrevo o que vivo.

Escrevo ... porque gosto. E tenho papel e lápis.



Luigi Spreafico

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Hoje é o aniversário do Diretor !!!

Madrugada Insólita



Acordei. Eram quatro horas da manhã. Esfreguei os olhos com preguiça. Fiquei sentado na cama, de olhos fechados, e esperei até lembrar onde estava. Levantei-me, enfiei os pés nos chinelos que me acompanham há tantos anos e caminhei até a cozinha. Bebi um copo d’água. Fiz café. Sentei-me na cadeira dura enquanto aspirava o aroma suave do arábica. Fechei os olhos. Perdi a noção do tempo. Tenho que devolver um livro que me emprestaram, não posso esquecer. Preciso alisar o chão de terra onde ponho comida para os passarinhos. Está cheio de rachaduras, os grãos de alpiste afundam, e as pobres aves não conseguem alcançá-los. O bambu que cortei há meses já está seco. Tenho que prepará-lo antes que as chuvas comecem. Já é quase Outubro. Hoje vou fazer o primeiro corte na rúcula que plantei há um mês de uma semente que não poderia ter nascido. Sua validade venceu em Setembro de 2004. Mas nasceu, porque ignorei o seu prazo de validade. Eu também nasci, mas com prazo de validade não revelado. Vou fazer como fiz com a semente. Ignorar o prazo e plantar-me a cada dia. Hoje é 16 de Setembro. Oitenta anos atrás eu vi a luz pela primeira vez. Assim me disseram. 80. Um número formado por três zeros. Um grande e dois pequeninos.

Luigi

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Minha Usaflex Bege


"As pessoas se irritam com aqueles que adotam padrões de vida muito individuais; elas se sentem humilhadas, reduzidas a seres ordinários, com o tratamento extraordinário que eles dispensam a si mesmos." ( F. Nietzsche)



Me mudaram para outra sala, adorei o espaço, os móveis modernos e tinindo de novos. Até comprei dois pares de sapatos de saltos altos e uma a bolsa, que foi cara, para combinar com os dois pares de sapatos. Comecei a usar uns vestidos mais curtos para realçar as minhas pernas, que dizem serem muito bonitas. Até me animei a fazer escova no cabelo, dia sim, dia não. Ouvi um elogio bem quente de um colega que sempre me achou invisível.

Acontece que antes trabalhava sozinha num rabicho de sala, e com a mudança tive que dividir meu espaço com ela. Mal a conheço, tomara que nossa convivência dê certo. Gosto de pessoas mais descoladas e ela é muito certinha. Sua mesa é arrumada, com todas as canetas e lápis dispostos, cuidadosamente, dentro do porta-lápis. Os poucos papéis são lisinhos e sem marcas de manuseio, impecavelmente, dispostos num porta papéis. Um tremendo contraste com a bagunça da minha mesa. Isso me incomoda um pouco.

A primeira vez que a vi abrindo o seu laptop, reparei que está novinho em folha, apesar de ter o mesmo tempo que o meu. Quando ela começou a teclar, seus dedos, tipo delicados, mal tocaram nas teclas. Atendeu ao telefone, silenciosamente, e eu sequer ouvi se falava com um homem ou com uma mulher. Gente assim me dá nos nervos.

Ganhamos bombons do chefe, fiquei esgueirando o jeito entediante dela morder devagar, mastigar, calmamente, de boca fechada. Eu coloquei aquela delícia toda na boca de uma vez. Não vou agüentar conviver o dia inteiro com alguém que come assim.

Ela fala baixo, pronuncia as frases com clareza. Nunca dá uma gargalhada, apenas sorri. Claro que não tem a minha alegria esfuziante. Quando chega de manhã,me dá um bom dia cordial e senta-se na cadeira com uma postura invejável. Não relaxa. Esta sala está ficando cada vez mais apertada para nós duas.


Há alguns dias não faço escova nos cabelos e voltei a usar minha sandália usaflex bege . Estou vendo um jeito de sair desta sala. Me sinto enjaulada, com ela apontando, dia após dia, os meus excessos, como se fossem defeitos. Vou acabar me aborrecendo e lhe dizendo uns desaforos. Afinal quem ela pensa que é com esse ar superior ?

Agora mesmo, só para me irritar, guardou os óculos, envoltos numa flanela, dentro de um porta óculos acolchoado.

domingo, 5 de setembro de 2010

As Feridas da Infância II - A Patriotada



“A Pátria é a família amplificada” disse Ruy Barbosa.
“O sentimento que divide, inimiza, retalia, detrai, amaldiçoa, persegue, não será jamais o da pátria. A Pátria é a família amplificada.”

A Escola Técnica de Indústria Química e Têxtil foi a primeira escola criada no Brasil para o ensino da tecnologia têxtil. Destinava-se a suprir pessoal técnico para o setor substituindo técnicos e engenheiros trazidos do exterior. A Confederação Nacional da Indústria dera muita importância a esse problema e escolhera o Senai para implementar o projeto. Num prédio enorme instalou oficinas e laboratórios com os equipamentos mais modernos disponíveis na época. Instalou também um parque esportivo, cozinhas, lavanderia e um internato, posto que os alunos vinham de todos os Estados do Brasil e muitos do exterior. A direção foi entregue ao Prof. Mario Souto Lyra, engenheiro que se havia especializado no Instituo Têxtil da Universidade da Carolina do Norte.
O regime era severo: oito horas de aula por dia e mais uma hora de estudo orientado, obrigatório, à noite. Aos sábados, atividades culturais.

Na primeira semana de aulas o Diretor reuniu os alunos para um anúncio importante: o aluno que se classificasse em primeiro lugar durante todo o curso seria contemplado com uma bolsa de estudos. Faria o “Master in Science”, de quatro anos, na Carolina do Norte. Eu vinha de Pernambuco, para onde tinha ido no começo da adolescência e havia completado, com muito sacrifício, o curso secundário. Continuar os estudos depois do curso técnico só seria possível, para mim, se eu conquistasse aquela bolsa. Classifiquei-me em primeiro lugar.

Pra chamar a atenção sobre a Escola, a Confederação Nacional da Indústria ofereceu um jantar ao empresariado têxtil, onde foi anunciada a concessão da bolsa. Entre as autoridades presentes estavam Euvaldo Lodi, presidente da Confederação, e D. Jaime Câmara, Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro. Presente estava também o Professor Ivo A. Cauduro Piccoli, que havia sido nosso professor de física durante todo o curso, muito eficiente e simpático, que se tornara grande amigo dos alunos. Ele chefiava o departamento da Confederação que administrava as bolsas de estudo.

Terminado o jantar, parabéns pra cá, parabéns pra lá, salamaleques pra todo o lado, Piccoli me chama a um lado e diz:
-- Venha amanhã ao meu escritório e traga seus documentos. Vamos tratar do seu embarque.
Fui pontual. Depois de um longo prólogo no qual discorreu sobre o curso nos Estados Unidos, o professor pergunta:
-- Trouxe os documentos?
Entrego-lhe os documentos. Ele olha a carteira de identidade e solta um urro:
-- Italiano? Você é italiano?
-- Sou, sim. Todo o mundo sabe disso lá na escola.
-- Não é possível! Todo mundo chama você de “Pernambuco”, como é que você pode ser italiano?
-- Pois sou. Estou pedindo a naturalização, mas a papelada ...
-- Eu não posso mandar um italiano representar o Brasil numa escola americana.
-- Mas, me disseram que a bolsa era um premio para o primeiro colocado e não ...
-- Não é possível, não é possível!

Meu mundo desabava. Eu não sentia o chão debaixo dos pés. A vista se turvou.
Vi a cara do meu pai, a quem eu havia prometido continuar os estudos por minha conta. O professor continuava falando mas eu não ouvia mais nada. De cabeça baixa afastei-me, de costas, até encontrar a porta. Eu tinha vinte anos.
Completei meus estudos aos quarenta e sete, casado e com dois filhos grandes.

“ A Pátria é a família amplificada” disse Ruy Barbosa.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Cena de Rua


Claudia Bontempo

"Da série:

Esta semana embarquei
meu filho para
o mundo, mas ele ficará ao meu lado em todos os meus dias, no meu
pensamento
"



Era aqui tenho certeza que era aqui. No entanto, este senhor que me olha impaciente, me diz que não tem. Fico confusa. Já dei a volta por toda a vitrine para ver se não mudaram de lugar, talvez ele seja novo e não saiba onde estão. .

-Onde estão as sandalinhas dos meninos ? Pergunto novamente.

O homem se zanga e diz que não sabe de sandalinhas de meninos nenhuma, e vai atender outra pessoa. Mas era aqui nesta loja que vendiam as sandalinhas que eu comprava para os meus meninos.

Tinha uma vitrine só de pequenas alpercatas de couro. Eu chegava com eles tão pequenos ! Como eles eram pequenos, meu deus ! Eu vivia afobada, sem tempo de abraçá-los e beijá-los como eu queria. Vínhamos de longe, pois gostava de ver os pezinhos calçados com elas.

Resolvo sentar-me no chão mesmo. Estou tão cansada de procurar pelos meninos. As pessoas passam na rua e me olham como se tivessem pena de mim, não percebem que tenho um objetivo claro e preciso. Eu tenho que achar a vitrine. Eu tenho que achar meus meninos.

Eu sei que viraram homens , mas eu tenho que achar os meninos que ainda vivem dentro de mim.

Gostava tanto de ver seus pezinhos calçados com as sandalinhas.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Nos Toscos Fios - O Remorso


Claudia Bontempo lia, compenetrada e solene, sua crônica semanal. Eu ouvia, atento, como os demais colegas, preparado para mais um dos seus textos comoventes como “Segredo Bem Guardado” e tantos outros que tocam fundo na alma da gente. Sua voz se fazia dramática quando sibilou:
-- ... nos toscos fios ...
A sonoridade da frase levou-me às gargalhadas. Não sei explicar por que. A colega ainda esboçou uma explicação mas eu não conseguia parar de rir.
Indignada, Claudia interrompeu a leitura, jogou os papeis sobre a mesa e trancou-se num mutismo impenetrável. Por mais que eu implorasse recusou-se a continuar a leitura. Nunca mais voltou ao assunto e eu fiquei sem saber do que se tratava nem que fios eram aqueles. Fiquei com sentimento de culpa que me conduziu a um pensamento atroz. Eu podia ter frustrado, naquele momento, a criação de mais uma obra prima da Claudia Bontempo.
Meio sem jeito, e com a intenção de penitenciar-me, resolvi fazer graça escrevendo um poeminha bobo que chamei de “Nos Toscos Fios”. Não deu certo e eu continuei carpindo a minha culpa.
Como a dor continuou insuportável, fui buscar nos escaninhos da memória alguma coisa que me ligasse a fios e com eles teci esta crônica que a ela dedico na esperança de obter a sua clemência. E antecipo um apelo: Releve meus erros de português. Sem eles eu não conseguiria escrever nada.

URDUME, TRAMA E TRAMÓIAS

Precisávamos de fios. Muitos fios. Fios de lã. Fios crus de pura lã penteada. Com eles produziríamos o tecido que nos iria projetar na história da industria têxtil brasileira. Éramos jovens e sonhadores. Estávamos no último ano do curso técnico da industria têxtil, o primeiro a ser criado no Brasil e seriamos a primeira turma a ser formada. Discutia-se a festa de formatura, que seria realizada nos salões do Fluminense, àquela época um clube aristocrático. Os concluintes filhos de empresários queriam que o traje fosse smoking. Os perebentos de Sergipe, Alagoas e Pernambuco, entre os quais o abaixo assinado, se opunham.

Reuni a turma e fiz uma proposta: Vamos tecer o nosso próprio pano e mandamos fazer o terno. Temos o tear mais moderno do mundo para tecidos de lã. Faremos uma gabardine perfeita e a tingiremos de azul marinho, a cor da moda de todos os executivos. Só precisamos de fios. Há dois lanifícios no Estado. Tentarei sensibilizar um empresário e talvez consiga que ele patrocine a primeira turma de técnicos formada no Brasil. Afinal, é do interesse do setor. Talvez os fios sejam doados. Proposta aprovada.

Marquei entrevista com um gerente do lanifício que deu uma risadinha quando falei em patrocínio mas concordou em vender os fios. Discutimos o negócio: especificações, quantidade, preço, etc. Negócio fechado. O gerente me encaminhou a um magarefe para acertar a entrega.
Os fios que se destinam às tecelagens são acondicionados em bobinas cônicas que têm como suporte um tubo de papelão rígido. O formato em forma de tronco de cone visa a facilitar o desenrolamento do fio nas operações posteriores. O peso da bobina cheia varia conforme o fio e naquele caso era de 800 gramas. O tubete de papelão pesava 40 gramas. Quando fui retirar os fios, o epiltrafa entregou-me bobinas parcialmente usadas que continham, se tanto, 200 gramas. A fraude era dupla: 1. Tratava-se de bobinas descartadas porque arrebentavam demais durante o processamento; 2. A desproporção entre o peso do tubete e o do fio era evidente; nem precisava fazer cálculos para ver que estávamos comprando papelão a preço de fio. Quanto às rupturas dos fios eu nada podia fazer já que se tratava de uma hipótese, apesar das evidências. Mas, quanto ao peso dos fios, pedi que fosse descontado o peso dos tubetes pois eles representavam 20 por cento
do peso do fio contra 5 por cento no caso das bobinas cheias.

A discussão foi longa e inútil. Era aquilo ou nada. Saí com os meus fios, furioso e humilhado. O resultado não foi outro. Os fios partiam à toda hora. O trabalho era penoso. Revezamo-nos dia e noite no tear. Quando alcançamos a metragem mínima necessária ainda sobravam muitas bobinas, com uma camada ínfima de fio. Juntei tudo e parti para a fábrica a fim de devolve-las. Levei comigo quatro colegas escolhidos por peso e tamanho pois sabia que dificilmente seriam aceitas. Fui atendido pelo mesmo sabujo. Não foi preciso discutir muito para que aceitasse a devolução. Só que:
-- Está bem, vou pesar o fio, só que tenho que descontar os tubetes de papelão.
Os quatro colegas circundaram o safado e não foi preciso dizer nada para fazê-lo desistir da idéia. E, aí sim, vendi o meu papelão a preço de fio.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Caros Colegas

Tenho me esforçado para comparecer com assiduidade aos sermões semanais. No entanto vejo que alguns colegas hibernaram, mesmo morando em plena praia. Ou a Paçoca escreve alguma coisa ou entro em greve de verbo.
Luigi

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Haikai (em japonês: 俳句, Haiku ou Haicai?) é uma forma poética de origem japonesa, que valoriza a concisão e a objetividade. Os poemas têm três linhas, contendo na primeira e na última cinco caracteres japoneses (totalizando sempre cinco sílabas), e sete caracteres na segunda linha (sete sílabas).
[1].

Segundo Mr.Hoigays (1988), o primeiro autor brasileiro de Haicai foi Afrânio Peixoto, em 1919, através de seu livro Trovas Populares Brasileiras, onde prefaciou suas impressões a respeito do poema japonês:

“Os japoneses possuem uma forma elementar de arte, mais simples ainda que a nossa trova popular: é o haikai, palavra que nós ocidentais não sabemos traduzir senão com ênfase, é o epigrama lírico. São tercetos breves, versos de cinco, sete e cinco pés, ao todo dezessete sílabas. Nesses moldes vazam, entretanto, emoções, imagens, comparações, sugestões, suspiros, desejos, sonhos... de encanto intraduzível”[3].

Em japonês, haiku são tradicionalmente impressos em uma única linha vertical, enquanto haiku em Língua Portuguesa geralmente aparecem em três linhas, em paralelo[2]. Muitas vezes, há uma pintura a acompanhar o haicai (ela é chamada de haiga). "Haijin" é o nome que se dá aos escritores desse tipo de poema, e principal haijin (ou haicaísta), dentre os muitos que destacaram-se nessa arte, foi Matsuô Bashô (1644-1694), que se dedicou a fazer do haikai uma prática espiritual.

Com a ambientação e a difusão do haiku em língua portuguesa, algumas correntes de opinião [3] sobre este se formaram:

A corrente dos defensores do conteúdo do haiku;
A corrente dos que atribuem importância à forma;
A corrente dos admiradores da importância do kigo.

Os defensores do conteúdo do haiku são aqueles que consideram algumas características do poema peculiares, como a concisão, a condensação, a intuição e a emoção, que estão ligadas ao zen-budismo. Oldegar Vieira é um haicaísta que aderiu a essa corrente.

Os que consideram a forma (teikei) a mais importante seguem a regra das 17 sílabas poéticas (5-7-5). Guilherme de Almeida não só aderiu a essa corrente como criou uma forma peculiar de compor os seus poemas chamados de haikais “guilherminos”. Abaixo, a explicação da forma conforme o gráfico que o próprio Guilherme elaborou:

_______________ X
___ O ______________ O
_______________ X


Além de rimar o primeiro verso com o terceiro e a segunda sílaba com a sétima do segundo verso, Guilherme dava título aos seus haikais. Exemplo (GOGA, 1988, p. 49):

Histórias de algumas vidas

Noite. Um silvo no ar,
Ninguém na estação. E o trem
passa sem parar.

Os admiradores da importância do kigo respeitam em seus haikais o termo ou palavra que indique a estação do ano. Jorge Fonseca Júnior é um deles. Apesar de existirem essas distinções retratadas aqui como correntes, nomes como os de Afrânio Peixoto, Millôr Fernandes, Guilherme de Almeida, Waldomiro Siqueira Júnior, Jorge Fonseca Júnior, Wenceslau de Moraes, Oldegar Vieira, Abel Pereira e Fanny Luíza Dupré são importantes na história do haikai no Brasil

Alguns exemplos:


pétala caiu
se quis colorir o chão
fez bem, conseguiu.
Carlos Antonholi



no despenhadeiro
a sombra da pedra
cai primeiro
Carlos Seabra



outro outono
no chão entre as folhas
sonhos do verão
Ricardo Silvestrin




fim do dia
porta aberta
o sapo espia
Alice Ruiz



pétalas de rosa
a contar-lhe uma história --
sonho de mulher
Chris Herrmann



Ah, mosca de inverno
- questão de dia ou de hora
seu último instante?
Masuda Goga



Florada de ipês!
Meu pai também se alegrava
Em tarde como esta...
Teruko Oda



Dia de Finados
Formigas carregam
Pétalas que caem.
Jorge Lescano



início de outono --
no caminho vão sumindo
as vozes dos amigos.



vento de inverno:
o gato de olho vazado
procura seu dono
Edson Kenji Iura


Para quem viaja ao encontro do sol,
é sempre madrugada
Helena Kolody


Pintou estrelas no muro
e teve o céu ao
alcance das mãos
Helena Kolody


O ipê distraído
pinta de amarelo
a grama do parque
Jorge Fernando dos Santos


Sob o sol se pondo
como alfinete no lago
descansa a garça
Marcelo Santos Silverio

Referências:

1.↑ Lanoue, David G. Issa, Cup-of-tea Poems: Selected Haiku of Kobayashi Issa, Asian Humanities Press, 1991, ISBN 0-89581-874-4 p.8
2.↑ van den Heuvel, Cor. The Haiku Anthology, 2nd edition, Simon & Schuster, 1986, ISBN 0-671-62837-2 p.11
3.↑ a b c GOGA, H. Masuda. O haicai no Brasil. São Paulo: Aliança Cultural Brasil-Japão, 1988.

Links:

Caqui(em português)
Caixa de Hai-Kai(em português)
Jornal Nippo-Brasil História do Haicai(em português)
Blog Hai Kais(em português)

domingo, 22 de agosto de 2010

Haicai para uso interno


Aprendi com Lena Jesus Ponte, diáfana poetisa do haicai, a apreciar essa forma de poesia que rejeita a individualidade, despe-se da moralidade e da intelectualidade e glorifica a solidão. Lena é um haicai na sua forma física, transparente, emanando uma luz que envolve as pessoas ao seu redor e as transforma em poesia.

Nas frequentes viagens ao Japão eu tentara penetrar naqueles versos sintéticos, lidos em tradução para o inglês, sem conseguir captar-lhes a alma. Logo entendi, em discussões com japoneses, que não era só a deterioração causada pela tradução que me impedia de captar-lhe o verdadeiro sentido poético mas também porque, como explica Cecília Meireles, “na sua concisão eles evocam, para os japoneses, sugestões que o Ocidente em geral não consegue captar”. Nas aulas de Lena Pontes consegui penetrar um pouco mais no mundo mágico do haicai.
Quando, em uma das aulas, Lena mencionou o nome de Oldegar Vieira entre os poetas brasileiros precursores do haicai, dei um pulo na cadeira. Oldegar Vieira havia sido meu professor de português na Escola Técnica em 1949. Oldegar acabava de publicar seu primeiro livro “Folhas de Chá” e, vez por outra recitava em classe seus haicais. Lembro-me bem de alguns, até hoje:

Noite de Natal
Neve na vitrine
Lágrimas nos olhos
Do menino pobre

Alvorada
Pouco a pouco vai
O canto claro do galos
Clareando o dia

Pôr de Sol
Na tela do firmamento
O sol, pintor desastrado,
Derramou suas tintas

Pouca importância demos ao livro do Oldegar. Éramos jovens, imaturos e irreverentes. Certo dia um colega mais gaiato escreveu no quadro negro:
“Próximo lançamento do Professor Oldegar Vieira: Pó de Café”. O professor leu a frase e, longe de ofender-se, dando uma risada disse:
-- Vocês estão convidados. Espero que comprem o livro.

A neblina da serra induz à reflexão e a reflexão nos torna poetas. Pena que a neblina não nos dá a habilidade para escrever. De qualquer forma aqui vão meus destemperos:

No ouvido das folhas
Depositei meu segredo
Morrerei sem medo

Sobre um galho seco
Um passarinho canta
Que a vida se foi

Pensa e conclui
O cérebro da floresta:
O homem não presta

Senilidade
Apenas senilidade
Senilidade

Um dia serás planta
Carregada de sonhos
Que um dia cairão

Tristeza de inverno
Senta-te aqui ao meu lado
Finge que é verão

Luigi Spreafico

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Francisco! Ôooh, Francisco!

Francisco seguiu o pai. Sem maiores estudos tornou-se um grande mecânico ferramenteiro. Partindo do nada instalou-se em Santo Amaro, São Paulo. Construiu uma oficina onde produzia peças para a indústria automotiva. No tempo vago projetava componentes para outros setores como eletrodomésticos, caldeiraria e implementos agrícolas. Teve dois filhos: um casal.
O filho, tendo estudado mecânica de precisão, o acompanhou na profissão e com a aposentadoria do pai transformou a oficina em uma fábrica de máquinas e acessórios para estamparia de silk-screen.

Francisco, aposentado, conseguiu como tantos outros românticos sentimentais o “seu sítio, seu paraízo”. Localizava-se próximo a Ibiúna, a mil e quinhentos metros de altitude, o que me provocava uma certa inveja pois ali era possível dormir acalentado pelo suave perfume da macela.
Numa viagem ao sítio ele foi flagrado pela polícia federal dirigindo sem óculos. Embora a carteira de habilitação o obrigasse a isso, como o grau era pequeno, Francisco sentia-se mais confortável dirigindo sem os óculos e os mantinha ao alcance da mão, no banco ao lado. Desceu do carro com os óculos na mão.

-- O senhor está dirigindo sem óculos.
-- Desculpe, mas eu estou dirigindo com os óculos.
-- Mas o senhor está com eles na mão.
-- Certo. Acabei de tirá-los. È que minha mãe me ensinou que sempre se deve tirar os óculos quando se fala com uma autoridade.

Entre as coisas importantes a que Francisco se dedicou, antes que o sítio se transformasse em “seu sítio seu prejuízo”, estava a apicultura. E, para fazê-la bem não poderia fazê-la que não fosse migratória, você sabe, é aquela em que se deslocam as colméias para os lugares onde a florada é mais abundante. Nessa época Francisco já passava dos setenta anos de idade e começava a desenvolver aquelas paranóias que sinalizam a senilidade: discussões freqüentes por motivos banais com a mulher, obstinação na defesa dos seus pontos de vista e... diga você o resto. Entre essa paranóias estava a de que a mulher sempre o contrariava, sem mais nem menos, só por prazer. Elizabeth, sua esposa, era austríaca e uma santa mulher, um modelo de tranqüilidade. Chegada ao Brasil já adulta falava com um sotaque divertido e era um prazer ouvi-la.

Numa visita que lhe fiz nessa época sentamos para tomar chá na enorme copa
da enorme casa que ele mesmo havia desenhado e onde era difícil distinguir as fronteiras entre a casa e a oficina. Elizabeth estava na cozinha e podia-se vê-la debruçada sobre o fogão.

-- Luis, quero que você prove o mel que acabei de tirar. Deu uma produção enorme.
Provei o mel e comentei:
-- Este mel é bom, Francisco, mas tem gosto de cana.
-- Cana? Que cana? Como, cana?
-- Cana de açúcar. Você colocou as colméias perto de algum canavial?
Francisco provou o mel.
-- Você tem razão, tem gosto de melado. Como é possível? Ah, você quer ver uma coisa, você quer ver, quer ver? Vou dizer isso pra Bete. Ela vai dizer que não é nada disso, que eu estou maluco, só para me contrariar. Quer ver, quer ver?

-- Bete! Oh, Bé!
-- O que é Franzisco?
-- Este mel tem gosto de cana, você sabia?
-- Klaro, Franzisco. Só temm cana nesse lugar. Focê kerria que tinha gosto te frampoesa?

Perto de completar noventa anos, Francisco está acamado. Vou visitá-lo, em Santo Amaro, nem sempre com a freqüência que ele merece. Debilitado fisicamente, está sempre implorando por piedade. È compreensível. Sente-se indefeso e impotente.
Outro dia telefonei-lhe para saber como andava a saúde. Respondeu-me num tom que parecia vir do além:
-- Oh, oh... estou aqui morrendo, não posso me mover, oh... estou morrendo ...
-- É Francisco, todos nós vamos morrer um dia.
-- ... não posso comer mais nada ... só soppinha ... pappinha ... osso buco ...
-- Osso buco? Gritei eu. Você esta comendo osso buco? Isso é pesado até pra mim e você vem me dizer...
Flagrado, ele se recompõe do deslize e dispara com toda a vitalidade:
-- É, você sabe né, Luis pra fazer o osso buco direito tem que aprender. O osso buco se acompanha com risotto. É preciso tirar o tutano do osso e colocar no risotto que assim fica mais cremoso ...

Não o interrompi. Ele continuou descrevendo pratos que comíamos quando crianças. Depois começou a recitar poesias. Dante, Carducci, D’Annunzio, poesias que ele aprendera na escola primária, ao pé das montanhas, junto ao Lago de Iseo, até os 12 anos de idade, quando emigrou. Durante meia hora ele recitou poesias sem parar. E durante meia hora eu chorei. Chorei por ele e por suas lembranças. Chorei pela professora que lhe transmitira aqueles versos sem imaginar que ele os recitaria aos noventa anos, depois de atravessar um oceano. E chorei por sua escola e pelas coisas que se ensinavam naquela época.
Luigi

domingo, 8 de agosto de 2010

ESCREVER


-- Vou parar de escrever.
-- Por que?
-- Estou enlouquecendo.
-- Mas você não precisa parar de escrever só porque está ficando louco. Você não lê jornal? Não viu como tem louco escrevendo? Preste atenção ao que dizem certos políticos. E os economistas, desvairados, quando analisam as crises mundiais, os superávits primários, a distribuição perversa da renda, a deterioração das relações de troca, o corporativismo nas relações intersexuais dos povos nômades do baixo Cáucaso e sua influência na taxa de formação do capital, etc.,
Todos doidos! Eles conseguem comprovar duas teses diametralmente opostas usando o mesmo argumento. E os nossos legisladores, baseados nessas informações, para nos proteger, danam-se a tacar impostos e aumentar juros. Você, pelo menos, não prejudica ninguém. Escreva loucuras. Ninguém notará.
-- Mas essa é justamente a minha preocupação. Quem vai ler? Tirando meia dúzia de amigos ...
-- Não se preocupe com isso. Sempre haverá alguém mais descuidado disposto a ler o que você escreve.
-- Acho que você não entendeu. Não duvido que pessoas abnegadas se disponham a ler o que escrevo. O problema é fazer com que o livro chegue a elas. Não há pessoas suficientes para todos os livros que são publicados. Eu lhe garanto: tem mais livro do que gente!
-- Como assim, tem mais livro do que gente?
-- Você já reparou quantas livrarias existem espalhadas pelo mundo? Comece pelo Rio de Janeiro. Quantas? E Buenos Aires, aqui visinho, que tem três vezes mais do que o Rio? Você conhece as livrarias de Nova York? São gigantescas!
E Paris? E Londres, Frankfurt, Madri, Milão? Tókio tem uma livraria que tem sete andares com a área de um quarteirão! Não, não, isso dá pra enlouquecer!
São livros e mais livros que vão se acumulando desde Gutemberg, nas livrarias, nos armazéns, nas bibliotecas, nos arquivos, nos mosteiros, nos museus e até na minha casa. Não há gente para tanto livro. Só de pensar nisso eu enlouqueço.
-- Tenha calma. Acho que ainda há uma possibilidade de interromper esse seu processo de decomposição cerebral. Em primeiro lugar você está se precipitando. Se você não tem dados estatísticos confiáveis você não pode concluir que não há leitores suficientes. E aí a coisa se complica porque você teria que fazer um corte no tempo, calcular o número de livros em estoque nas livrarias nessa data, incluir as bibliotecas públicas, as particulares, os arquivos e sei lá mais o que, e ainda assim teria que fazer uma abstração deixando fora todo o material publicado em forma de jornal, revistas, boletins e sem falar em e-books, blogs e tudo o que circula no espaço sideral ...
-- Pois é. Essa é a minha intenção. E eu comecei dando um passo bem modesto, analisando um microcosmo que me permitisse montar um modelo a ser aplicado no resto do mundo.
-- De que maneira?
-- Pelo Rio de Janeiro. Com uma só livraria.
-- Como?
-- Você conhece a Leonardo Da Vinci? Sabe quantos livros tem lá dentro?
-- Não, por que? Você sabe?
-- Eu contei.
-- Impossível, você está maluco. Ninguém conseguiria fazer isso. Você perguntou pra Dona Giovanna?
-- Não. Não me atrevi, ela poderia desconfiar. Mas eu calculei. São 86.400 livros, com pequena margem de erro.
-- Nem vou lhe perguntar como você conseguiu fazer isso.
-- Veja bem, vou simplificar: a livraria tem 5 salas com estantes que vão até o teto. Cada estante é dividida em compartimentos, todos iguais, graças ao bom senso do marceneiro. Achar o total de compartimentos foi fácil. Contei o numero de livros que existe em cada compartimento e chequei, por amostragem, com alguns outros, pois nem todos os livros têm a mesma espessura. Assim cheguei a um valor médio representativo, com boa margem de segurança, de todo o conjunto. Os compartimentos que armazenam dicionários e livros de arte, que são notadamente mais grossos, foram tratados em separado e receberam um coeficiente de correção. No piso da loja também há livros, distribuídos em gôndolas, cuja quantidade pode ser facilmente calculada tomando-se o número de livros por metro quadrado. O meu passo é bastante regular e com ele posso medir qualquer distancia com erro menor do que dois por cento. Determinada a área de cada sala tem-se o total de livros, com o cuidado, naturalmente, de descontar o espaço ocupado pelas vias de acesso, escadas, mesas e cadeiras da administração, coletores de lixo, e onde ...
-- Pára, pára! Vou lhe dar o telefone de um médico.
-- Que médico?
-- È o psiquiatra que me curou quando eu parei de escrever. Não deixe de procurá-lo assim que você acabar essa cerveja.
Severino Mandacaru

terça-feira, 3 de agosto de 2010

As feridas da infância - I

UM BUQUÊ PARA MINHA MÃE

As feridas emocionais que sofremos na infância e na adolescência deixam marcas indeléveis. Sei que de nada serve arrastá-las pelo resto da vida. Nem mesmo servem de exemplo para coisa alguma. Atravessei toda a minha vida profissional sem dar-lhes a menor importância, totalmente esquecidas. Mas não sei por que agora voltam-me à memória fazendo-me sofrer, numa espécie de autoflagelação. Talvez pudesse dizer que servem de alerta aos jovens para que se acautelem contra falsos protetores. E aí me perguntariam: e como posso fazer isso?

Quando tinha oito anos a minha casa ficava exatamente no pico do morro da Vila Maria. De um lado, a partir do limite do meu quintal, o chão desaparecia e se podia contemplar a várzea do rio Tiete e o maciço dos edifícios no centro da cidade. Do lado oposto, ruas estreitas e vielas serpenteavam pela encosta até a base da colina onde começava o brejo. O brejo era um pântano que abrigava um pequeno lago de solo arenoso e firme, onde se podia andar a vau. Em certos dias do ano, devia ser no outono, uma neblina pesada caia sobre o lago criando uma atmosfera de mistério onde me parecia ver duendes fazendo troça.

Eu escapulia de casa, muitas vezes sozinho, e corria até lá em busca de aventuras: brincar com uma rã, perseguir um lambari, comer um araçá ou colher alguns “botões” com os quais minha mãe decorava a mesa de refeições que ficava na cozinha de terra batida. Os “botões” eram uma espécie de junco, uma simples haste longa e rígida que terminava com um botão, uma inflorescência compacta, de superfície lisa e aveludada e diâmetro não maior do que o dedo médio. De cor, eram brancos. Com os tocos de giz colorido que recolhíamos no quadro negro da escola pintávamos os juncos formando, assim, um buquê de flores. Esse era o ornamento mais comuns em nossas casas.

Certa manhã, vendo que a mesa da cozinha estava desprovida de colorido, parti para o brejo. Não havia ninguém. Eu já havia recolhido um bom feixe de juncos quando apareceu um rapaz enorme, já homem feito.

-- Olá! O que é que você está fazendo?
Expliquei-lhe o que fazia, espantado por ver um homem daquele tamanho que não sabia pintar juncos.

-- Eu também vou catar.

Tirou os sapatos, arregaçou as calças e atirou-se à água. Voltou com meia dúzia de hastes e depositou-as ao lado das minhas. Repetiu a operação com mais três ou quatro hastes e disse:

-- Vamos colocar tudo junto. Depois a gente divide ao meio.

Eu percebi a trapaça mas não podia fazer nada. Continuei empilhando juncos. O meninão ficou rodando de um lado para outro assobiando, apontando para os passarinhos, jogando pedrinhas no lago. Quando o feixe já estava bem grande calçou os sapatos, sobraçou o feixe, e foi-se embora assobiando. Não disse tchau.
Fiquei sentado, a cabeça escondida entre os joelhos, tentando esconder as lágrimas de mim mesmo. Eu não entendia. E até hoje não entendo.

Luigi