quarta-feira, 28 de julho de 2010

Travessuras na Cozinha

É muito bom ser criança e ter amigos para brincar!

segunda-feira, 26 de julho de 2010

De Almendrados e Medialunas


RÉQUIEM PARA OS AUSENTES

Soneto naif para uso interno

Bem feito! Quem mandou sair
Quando tudo era perfeito?
Sair pra que? Pra isso?
Comer bife de chorizo,

Medialunas e almendrados?
E nós, mortais abandonados,
Farejando a mesa como moscas
Condenados a comer roscas toscas!

Se assim é, que assim seja.
- Vamos vingar-nos, traz cerveja,
Disse uma , - e bebamos, sem que ela veja.

Perfeito, disse o outro,
- Tenho aqui o que nos falta:
Inveja, soberba, e a língua solta.



E foi assim que os que ficaram resolveram promover um jantar de desagravo. Olhando bem o que estavam fazendo era apenas esconder a saudade que os abate sempre que alguém se evade dos trabalhos depois da oficina.
Reunidos no templo gastronômico do Botafogo, sob a luz argêntea de uma lua complacente, os não evadidos discutiram o menu: o prato principal seria o pão, tema do dever de casa. Como acompanhamento um Pinot Noir da Patagonia – Reserva 2006, que foi seguido por dois outros rótulos de maior distinção cujos nomes não vou mencionar aqui para não despertar cobiça.
A sobremesa coroaria a nossa vingança com um almendrado, iguaria que os ausentes foram degustar nas planícies portenhas, em porções contidas, enquanto que a nossa seria servida de cambulhada.

Tudo saiu como planejado. Quem pesava e quem media, quem limpava e quem mexia, entre alaridos e gargalhadas, um bando de crianças.
Tudo pronto, iniciou-se a manducação, entre suspiros e ais. E ali ficamos até horas tardas, deixando-nos embriagar pelo perfume do pão e lambendo o almendrado.
Só para fazer inveja.

Severino Mandacaru


sábado, 17 de julho de 2010

Um Vício que é Amor




                                                                                    Claudia Bontempo

Juarez foi abandonado pelo grande amor de sua vida. Depois de alguns anos envolvido e apaixonado pela mulher de um rico empresário, que conheceu na academia em que ambos faziam ginástica, descobriu com pesar que o amor não supera o conforto que o dinheiro pode proporcionar. Mesmo sob as juras de eterno amor que a bela lhe proferiu, foi jogado para escanteio. Na lata.

Desceu do BMW dela, revestido com acentos de couro e direção automática, com um rolo de papel higiênico, que ela carinhosamente lhe ofertou para que enxugasse as lágrimas que escorriam sem cessar pela face, numa noite chuvosa e friorenta. Entrou imediatamente num boteco e pediu duas doses de vodca,  quando perguntado pelo garçom se comeria alguma coisa, respondeu que não. Apenas beberia, pois queria ficar de pileque em homenagem a sua amada. Duas horas depois, Juarez e o garçom rodeados de copos de vodcas e rodelas de laranjas de aperitivo, falavam da alegria de se viver um grande amor. Repetiam, sem atentarem para o clichê, a frase do Poetinha ;-“ Que não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure !” e contorciam-se em gargalhadas.

Mesmo quando pediu a conta a dura realidade não lhe atormentou. Arrancou do bolso um punhado de dinheiro amassado e pagou, sem ligar se iria ficar devendo a conta da luz do pequeno apartamento em que morava. Saiu trocando as pernas,  escorando-se nos muros que encontrava , mas achando que valera a pena se embriagar de amor, ainda que pela mulher de outro.

No meio do caminho resolveu fazer “um quatro” para ver “em quantas estava” e pela satisfação de  sentir-se um ébrio da paixão . Tropeçou no cadarço do tênis que estava desamarrado e deu com o nariz no chão. Levantou-se, ajudado por um transeunte que levou de imediato um abraço e um beijo afetuoso de agradecimento. Com muito custo conseguiu achar o caminho de casa. Deitou de roupa e tudo na cama e ligou para a ex, que não atendeu ao telefone. Sem noção do que escrevia, encheu a caixa postal dela de torpedos apaixonados dizendo que morreria de amor quantos vezes precisasse, simplesmente pela alegria de poder amar e amar de novo. Até que adormeceu.

No dia seguinte, Juarez acordou no meio de um sonho em que bebia toda a água de um rio, tal a sede que estava, enquanto alguém martelava o seu cocoruco com uma enxada, tal a dor de cabeça que tinha. As calças arreadas até o joelhos, não se sabe por que, enquanto o celular jazia ao seu lado cansado do trabalho árduo da noite anterior. O lençol sujo de sangue do nariz que arrebentara ao se esborrachar no chão.

Mas o pobre homem achou que isso tudo era não era nada, perto da tristeza que sentia por  ter perdido para sempre o seu grande amor.  Decididamente, a euforia causada pela vodca fora para o espaço. Amar e não ser amado não tinha graça nenhuma.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

A Pena Da Morte



Eu tive um sonho
No meu sonho eu morria
E morrendo eu não me via
Sofrer, como devia

Porque sofrendo passei a vida inteira
E mesmo sabendo que a vida é passageira
Não me dei conta que um dia eu morreria

De repente uma pena apareceu no espaço
Riscando os ares, rápida e matreira
E apontando meu peito zombeteira
Disparou letras como um falso abraço

A pena desenhava no ar letras bem feitas
Que eu arrumava sem zelo em linhas tortas
Para que fossem consideradas letras mortas

E assim passou-se o tempo
Minha alma levitava em desatino
Pois negava-se a cumprir o seu destino
Mergulhar no Espaço Sideral que eterno dura
Onde pudesse iniciar vida mais pura

Eu me deixava flutuar no ar disperso
Para não perder as letras e desperdiçar o verso

Foi quando a pena, com sua ponta de platina
Tresloucada, insana, escreveu ferina:

“Aqui jaz o que achava
Que em sonho morreria
E em seu sonho delirava
Porque morto estava e não sabia”

N.B. A fotografia da caneta foi tirada da capa do livro
“Una Noche de Amor” de Javier Marías –H Kliczkowski, Editores - Madrid
Luigi

Panem Nostrum Quotidianum


O pão nosso de cada dia. Esse é o pão.
O pão já tomou todas as formas que se pode imaginar. A “foccaccia” que aparece em algumas representações da Santa Ceia é feita, até hoje, tanto pelos camponeses da Lombardia como em muitos restaurantes sofisticados da Itália. Na Santa Ceia ele foi distribuído aos apóstolos e passou a representar o corpo de Cristo, que é transmitido aos fieis pela comunhão durante o santo sacrifício da missa.

“Corpus Domine nostrum Jesu Christi ...”

Sei que não deveria brincar com este assunto mas o próprio amadurecimento da Igreja me autoriza a fazê-lo. Porque me lembro como sofri em criança, ao comungar, quando a hóstia depositada sobre a língua me escapava e batia nos dentes. As advertências, nas aulas de catecismo eram severas: não se pode mastigar a hóstia, nem tocá-la com os dentes, porque ela representa o corpo de Deus. Eu ficava aterrorizado e me sentia, aos olhos de hoje, um verdadeiro canibal.
Atualmente, em muitas Igrejas, a comunhão é feita com pão de verdade, mastigável, mas ninguém me devolveu a alegria de compartilhar do corpo Cristo sem remorsos e culpas. E, certamente, meu sofrimento na infância não enalteceu o Senhor nem me tornou mais digno perante a sociedade dos homens.

... “custodiat animan tuam” ...

Quando meus filhos tinham 6 e 7 anos eu viajava muito e ficava longos períodos fora de casa. Numa dessa viagens, voltando da Itália, eu trazia um torrone de Cremona, considerado o melhor do pais. No primeiro jantar com a família abri o torrone para a sobremesa. Flamínio, o maior, levanta um fragmento da fina película de trigo que reveste todos os torrones do mundo e diz para a irmã:

- Olha, Flavia, igual àquele que a gente comeu na Igreja! Espantado, sem ligar coisa com coisa, eu perguntei:

- O que é que vocês andaram fazendo na Igreja?
- A gente estava na missa e viu que todo mundo formou uma fila e aí a gente também entrou e o padre deu um biscoitinho parecido com isto.
Olhei para a minha mulher:
-Você permitiu que eles fizessem a Primeira Comunhão sem nenhum preparo? E ela, ainda mais espantada do que eu:
- Eu não estava nessa missa. E estou ouvindo essa historia pela primeira vez. Como você.

... “in vitam aeterna, Amen!”.

Esse é o pão.

Luigi

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Ao Twitter, com carinho


Não sabia que o twitter era tão importante. Procurei incorporar-me a esse universo de pessoas quando vi que podiam comunicar-se entre si e espalhar notícias com a velocidade do relâmpago. Mas quando percebi o tempo que eu gastava garimpando notícias que pudessem servir para alguma coisa, desanimei. A maior parte delas ou eram bobagens tipo “hoje acordei cedo para lavar a roupa mas faltou água na minha casa”, ou eram notas pessoais de autoglorificação.
Até hoje não consigo entender a importância sócio-econômico-filosófica desse instrumento de comunicação que se alastra como fogo morro acima. Por causa disso desenvolvi um complexo de inferioridade que tento superar através da leitura dos tweets que são publicados na imprensa escrita, partindo do principio que, se ocupam o precioso espaço de jornais e revistas, é porque são importantes. O meu complexo só aumentou.
Perseverante, tratei de associar-me ao sistema tornando-me também um twitador, o que me fez mergulhar em profunda depressão, visto que, por incompetência minha, eu não conseguia alcançar um número expressivo de seguidores. Meus amigos aconselharam-me a não dar importância a isso: eu deveria me transformar em seguidor e acompanhar o twitter dos famosos, que iam desde o Obama até o Berlusconi e da Xuxa à Madonna. Foi quando descobri que, tal como no Orkut, no Facebook e nas Instituições de Caridade, havia twitters fake fazendo-se passar por gente famosa. Foi aí que me senti um verdadeiro palhaço.

Mas agora descobri o quanto eu estava errado. A colega Cora Rónai em sua crônica “ A Pátria de Notebook” (O Globo, 1 de Julho, 2010), uma preciosa meia página no lugar mais destacado do Segundo Caderno, traz esclarecedoras informações sobre a atividade twiteira. Discorrendo sobre a importância do twitter na torcida da Copa do Mundo, explica:

“Lá estavam brasileiros twitando de todas as partes do mundo, do coleguinha Jorge Pontual ... ao presidente da Microsoft para Ásia e Pacífico, Emilio Umeoca, que mora em Cingapura ... Claro que a “multidão” de cada um depende do número de pessoas seguidas. A esta altura todo mundo sabe, mas não custa repetir, que cada um vê, na sua tela inicial do Twitter, os comentários daqueles a quem segue. O pobre do Eike Batista tem uma vida muito solitária quando abre sua twit-janela, que só dá vista para os manda-chuvas da Rússia e dos Estados Unidos, para o Luciano Huck, para o Kaká e para um fake da chanceler alemã, Angie Merkel. Já pensaram o que é assistir à Copa nessa companhia?! Coisa de cortar os pulsos.”

Para ilustrar a beleza e a importância do mundo twiteiro na Copa, metade da meia página da crônica transcreve uma seleção de tweets indicando os respectivos endereços. Vou reproduzir uns poucos, para não abusar do espaço, mas recomendo a leitura de todos. São pérolas literárias que induzem á uma introspecção filosófica:

“A moça que trabalha na minha casa não curte jogo mas não pode ir para casa pq não tem ônibus. Beira ao ridículo essa paralisação.”
“Técnico do Chile preocupadíssimo. Se ficar no 0x0 e tiver prorrogação, capaz de eles perderem o vôo.”
“Aqui em casa eu me emociono quando ouço a galera gritando gol. E depois me emociono quando vejo.”
“Tá bom, Kaká. A gente já entendeu que você não é a Sandy. Agora, calma, tá?

Francamente, não sei, mas acho que se o tempo e a energia gastos no twitter fossem aplicados na fabricação de cestos de palha, tigelas de barro e bonecas de pano teríamos uma sociedade, não mais rica, mas, certamente, mais feliz.
No fundo, no fundo, talvez tudo isto não passe de uma grande inveja minha.
De qualquer modo, como vou pro inferno mesmo, deixem-me falar mal dos outros enquanto estou vivo.
Luigi

domingo, 4 de julho de 2010

Não vá (Monica Noronha)

Se eu fosse você não iria lá: poderia descobrir que eu ainda te amo.
Que as flores brotaram este ano, que as praias ficaram lotadas nos finais de semana, o abril não foi tão marrom e o inverno não será tão rigoroso assim.
Poderia descobrir que os fantasmas ainda me assombram, nas manhãs de domingo quando penso que é você que chega com café e jornal; quando saio do cinema e me descubro sozinho; quando a saideira é só uma, a música é só minha e ninguém me sorri de manhã.
Poderia descobrir quanta coisa mudou lá por casa: crianças novas no play, vizinho novo de porta, a padaria da esquina fechou, não tenho mais o quadro azul na parede.
Poderia descobrir que tudo é o mesmo por lá: os travesseiros da cama, o pastel de queijo da feira, sua parte do armário vazia. À noite te espero para jantar enquanto bebo uma dose sozinho.
Poderia descobrir que troquei todos os móveis, na insana tentativa de te esquecer. Joguei fora as cortinas que escolheu com tanto cuidado, pintei de amarelo a sua varanda – você detesta amarelo. Suas porcelanas viraram pó: a minha vingança. Levei quem eu não conhecia para dormir na sua cama e lhe dei as toalhas que deixou para trás como vestígio.
Se eu fosse você não iria mais lá. Ficaria comigo, minhas mãos entre as suas, sem pressa.