quarta-feira, 5 de outubro de 2011

A Tremonha



“Alô...alô! Joaquim, sou eu . Olha, eu deixei o Tarquínio tomando conta da tremonha mas estou preocupado, queria que você fosse lá e desse uma olhada. Hein?  Não, não ...  é que tinha um parafuso solto e ... o que ?, eu sei que quando você saiu estava funcionando direito mas você pode não ter visto o parafuso... claro, claro, mas quando eu passei lá... espera aí...  eu vi que tinha um parafuso solto e se aquela merda explodir vai voar farinha pra todo o lado e todo o mundo vai ver... calma, porra, deixa eu falar... o Tarquínio é um pobre coitado, não pode deixar ele sozinho, se der merda a culpa não é dele, vai lá...  olha... vai lá e confere tudo... escuta, Joaquim, vai lá e ajuda ele... o que?  o que?  Não, escuta o que eu tô falando, Joaquim... tá me ouvindo? Alô, alô! Joaquim? Tá me ouvindo? Tá me ouvindo? ...  Merda de telefone!”
Desligou.

Eu já estava quase adormecendo,  sentado naquela poltrona escorregadia da Mil e Um que chacoalhava pela  Rj 116 com a promessa de me deixar no Rio a tempo de tomar um chopinho. Eu, que não tinha nada a ver com aquela encrenca, me via agora sofrendo com o que poderia acontecer com o  Tarquínio. Estou cansado de me tornar testemunha involuntária de conversas alheias ouvidas através desse aparelhinho diabólico e, ainda mais, tendo que adivinhar o que se diz o outro lado da linha.
Não quero saber da vida alheia, não quero me envolver em briga de casais, reclamações de contas não pagas, declarações melosas de namorados arrependidos, papos codificados de amor, tão óbvios, que escancaram a montagem de uma infidelidade conjugal.  Chega. Não quero ser obrigado a ouvir confissões, delações e  broncas de gente que não conheço. Vou reclamar ao governo!  Vou pedir ao estado que proíba o uso de celular nos lugares públicos. Ele já o proibiu dentro dos bancos! Pois que o proíba também nos lugares por onde passo.  Esse  “Estado babá”, como alguém já o chamou, que me humilha quando viajo de avião - quem se lembra de “A tesourinha” do Zuenir Ventura? – esse estado que inventou o kit de primeiros socorros para os automóveis, uma palhaçada que não durou mais de um mês, tempo suficiente para encher as burras de alguns espertalhões, esse estado que encurta o tempo do sinal amarelo nos semáforos para faturar multas obscenas, que  deixou a Ponte Rio Niterói criar quatro faixas de rolamento onde só cabem três, que autoriza os provedores de banda larga a fornecer míseros  dez por cento da velocidade contratada, que me obriga a trocar todas  as tomadas da  casa fazendo-me refém dos preços abusivos das lojas que as vendem ... e agora chega.  Resistência passiva. Desobediência civil. Viva o Mahatma Gandhi!

E de que é estavam falando,  afinal de contas?  Que  droga  é  tremonha ?  Que farinha é essa?  É de trigo?  De milho? De mandioca ? É fina? É grossa ? Pra que serve ? Isso só pode ser coisa de bicheiro. Ou será de traficante ?  A farinha não seria para  “cortar”  cocaína? Deus me livre! E se eu for chamado a testemunhar, só porque ouvi a conversa ? Fiquei com medo.

Levantei-me e fingi que ia ao banheiro. Eu só queria era  ver a cara do indivíduo que ligara para o Joaquim.  Era feio, mal encarado e simulava estar dormindo, certamente para não se deixar trair pelo olhar. Não havia dúvida: tinha cara de traficante. Deveria ser o chefe do Joaquim, autoritário e bruto como só um traficante pode ser. Eu não tinha nada a ver com aquilo mas comecei a sentir pena do Tarquínio. Se a tremonha explodisse ele seria sacrificado. Talvez morresse ou, pior, ficasse aleijado para sempre. Teria família ? Muitos filhos ?  Ou seria ele um usuário da própria droga que produzia ? Acho que nunca mais vou viajar nesse ônibus.

Voltei para o meu lugar, carregado de angústia e medos.   Adormeci.        Só acordei mais tarde, com o barulho da explosão.

                                                                                   


quarta-feira, 16 de março de 2011

A Língua do Fanho


Preciso estudar a língua do fanho. Para quem já passou dos cinqüenta, como eu, e se mete a escrever, seja lá por que motivo for ( quanto a mim já confessei: escrevo para exibir-me), precisa aprender a língua do fanho. Aqueles que ainda não chegaram aos cinqüenta já nasceram sabendo, e esse dom foi se aprimorando com o tempo a ponto de aqueles que singram na adolescência navegam na web na base do piloto automático.

As instruções estão lá, claras, nítidas, cristalinas. Só que na língua do fanho. O melhor exemplo disso ocorre quando você precisa  transferir alguma  coisa que  produziu com seu próprio esforço e  a custa de muito suor,  para o trabalho que está para completar. Aí aparece a mensagem: “digite a url aqui”. E quem disse que você encontra a url? Mas a gozação continua: “para evitar erros de digitação recorte e cole o endereço da url”. É como se eles dissessem: “Carolina de Sá Leitão” e você entendesse “caçarolinha  de assar leitão” . É a língua do fanho.

Mas, justiça seja feita. As coisas já foram bem piores. Os cinqüentões devem se lembrar dos instrumentos de tortura usados até pouco tempo e agora felizmente superados. Eu chorava quando apareciam aquelas mensagens:
“Lebsek causou um erro. Lebsek será fechado. Salve seus dados e clique em OK para fechar Lebsek” .  Aí você procura os dados para salvar e clica fanhosamente como entendeu. O Lebsek desaparece, ninguém diz mais nada e os seus dados somem no oco do mundo. Para sempre? Não. Mas eles se escondem e só reaparecerão se você os chamar na língua do fanho.
E o que dizer da aterrorizante mensagem: “ERRO FATAL”, que aparecia assim mesmo, em caixa alta? E completava: “Se você clicar em continuar, todos os seus dados serão apagados. Clique em OK para voltar”. Na língua do fanho isso quer dizer: se você clicar em OK você ficará rodando como o cachorro que morde o próprio rabo; se clicar em continuar espere para ver o que acontece. Pois bem, eu já cliquei em continuar. A tela ficou preta como noite sem lua. Fugi dali apavorado e fui tomar uma caipirinha. No dia seguinte chamei o técnico, que me disse: “Vou levar o HD para ver o que posso salvar”.

Voltou  duas semanas depois com as salvações numa bandejinha - pelo menos foi assim que eu vi a cena - contendo um disco de  clip art  xexelento e um anúncio de bombons Serenata do Amor. Creio que era da Garoto.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

São trinta copos de chope

Na sua crônica de hoje Zuenir Ventura cita o poeta pernambucano Carlos Pena Filho  morto aos 31 anos em um acidente de automóvel.
Falando de “amar o transitório”, Zuenir analisa nosso comportamento diante de atitudes que nos levam a desperdiçar  oportunidades que nos são oferecidas:  “... perdemos tempo com bobagens que nos aborrecem além da conta, deixando passar momentos preciosos ...”  Zuenir  termina sua crônica com uma estrofe de Carlos Pena:

“Lembra-te que afinal te resta a vida
Com tudo que é insolvente e provisório
E de que ainda tens uma saída
Entrar no acaso e amar o transitório”

Lembro-me do Carlos Pena Filho no Bar Savoy,  onde costumava sentar-se com os amigos, definindo a lua que surgia sobre o cais do Recife:

“Era uma lua tão grande
De tão vermelha amplidão
Que mesmo Ascenso Ferreira
Comendo só a metade
Morria de indigestão”

E como não lembrar da sua mais célebre evocação ...

“São trinta copos de chope
São trinta homens sentados
Trezentos desejos presos
Trinta mil sonhos frustrados”  ...

... à qual nós dávamos seguimento:

Como bebes companheiro!
Como bebes tão ligeiro ...

Bons tempos aqueles, companheiro, bons tempos...

                                                            Severino Mandacaru

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Nossa cara no Livro

.
Lembro-me de que, quando apareceram os primeiros telefones celulares, um cientista americano, em declarações prestadas à imprensa, disse o seguinte:
“Existem coisas que a tecnologia nos oferece, que são absolutamente inúteis e logo se tornam imprescindíveis. O celular que o diga.”

O celular não só se tornou imprescindível como se tornou vital para todas as camadas da sociedade: do Primeiro Ministro ao engraxate da esquina; da Primeira Dama até a mariposa que faz ponto num bar da Av. São João.
O Facebook começou como uma brincadeira de estudantes inteligentes para fazer fofoca entre os colegas e exercitar sua habilidade na tecnologia da computação, superando os mestres e deixando-os desmoralizados. Cresceu e hoje é uma empresa avaliada em 50 bilhões de dólares. E tudo para que? Falar de abobrinhas!

Não é bem assim. Se examinarmos o conteúdo das páginas do Facebook veremos que, em sua grande parte, são futilidades, fotografias de péssima qualidade e opiniões inexpressivas, que consomem um tempo enorme para serem destiladas até que se chegue à gota final do produto. Mas o Facebook não é só isso. A rede conseguiu mobilizar multidões em questão de horas e só isso justificaria os seus cinqüenta bilhões. Como quando o cidadão Oscar Morales reuniu 10 milhões de pessoas em cidades da Colômbia, em protesto contra as Farc, ou como nas mobilizações que tem ocorrido recentemente nos países árabes em protesto contra as ditaduras.

E assim, entre abobrinhas, fofocas e mobilização de massas, vamos enriquecendo nossa cultura e aperfeiçoando a cidadania.

“Você tem notícias do fulano?”
“Não. Procura no Facebook, ele está lá”
“Você sabe que fim levou aquele chato da quarta série que vivia pedindo livro emprestado a todo mundo?”
“Ele está no Facebook, ficou rico. Montou uma editora.

Num interessante artigo publicado no “O Globo” de 11/02/11, o colunista Marcio Ehrlich ensina que “A vida em rede é um aprendizado”. Ele começa com uma pergunta: “Você já se estressou com alguém no Facebook? ... já teve vontade de deletar alguém ... não se culpe por isso.” A partir daí, Ehrlich analisa o prazer e as frustrações que a rede social nos proporciona e conclui:

“Admita. Estamos na rede para nos divertir. Desestressar do trabalho e do relatório atrasado ... portanto, se alguém lhe encher muito o saco, você não precisa deletar o seu próprio perfil e desistir da rede. Remova o inconveniente da sua lista. Esta é a modernidade social.”

Quanto a mim, recuperei a alegria de estar no Facebook.
Primeiro porque posso meter o pau em quem quiser e o pior que pode acontecer é me deletarem da lista.
Segundo porque, apesar de não pagar nada pelo Facebook, também ajudei, ainda que modestamente, a engrossar a conta de 50 bi do Markinho Zuckerberg e espero que um dia ele reconheça isso.

Tchau, nos veremos no Face, e não esqueça: o tempo que você gasta na rede engrossa a conta do Markinho, não a sua.

                                                                    Severino Mandacaru

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Lindo desenho ! Quem foi que escaneou ?



13 de Fevereiro - pg. 6



                                             15 de Fevereiro - pg. 7
                                                                                                           
                                                                          10 de Fevereiro - pg. 7

05 de Fevereiro - pg.4

Lindos desenhos! No "O Globo" todo o mundo desenha. Artigos, colunas e crônicas estão sendo fartamente ilustrados com desenhos que não sei bem como classificar: psicodélicos, futuristas, naif ? Não, naif é que não são. São uma curiosa combinação de riscos e rabiscos, manchas e borrões, enxertados com figurinhas geométricas pre-fabricadas do tipo triâgulos, quadrados, círculos, elipses, espirais, além de letras, algarismos, reticências e ... pontos de exclamação !
Uma figura. Pouco entendo de desenho e artes plásticas e, menos ainda,  de computação. Mas é facil concluir que esses desenhos são feitos com o "Paint", esse inteligente programinha de computador criado para ensinar as crianças a desenhar sem precisarem usar sua própria inteligência.

Vocês já viram os desenhos do Millor Fernandes? São de uma simplicidade encantadora. São expressivos e esteticamente primorosos. São inteligentes. Não sei se alguma vez o Millor chegou a usar o Paint em seus desenhos. Mas, se o fez, certamente sabia usá-lo.
Contemplem, colegas, contemplem.

Posted by Picasa

sábado, 29 de janeiro de 2011

Segurança, Televisão e Ingenuidade

Segurança pública é um assunto que me interessa na medida em que sou afetado, tanto pela ação dos marginais como da polícia. De segurança pública nada entendo. Nem ao menos sei quando estou lidando com a polícia militar, com a polícia civil ou com a polícia municipal. Aliás, nunca entendi por que são necessárias três polícias para garantir a minha sobrevivência. No Chile, onde vivi por algum tempo, havia os “carabineiros” e eles eram suficientes. Nunca vi nenhum barrigudo entre eles, é bom registrar. Portanto não pretendo - nem poderia - falar sobre segurança pública. Mas quero contar o que  senti quando os “poderes públicos” – acho que é a melhor forma de não excluir ninguém – resolveram desencadear uma guerra para acabar de vez com o tráfico. E, também, porque não quero passar por ingênuo.

Ao findar o ano de 2010 o governo do Estado do Rio de Janeiro reuniu as polícias militar e civil , apoiadas pelo Exército e a Marinha com seus carros blindados, tanques de guerra e veículos de assalto, para um ataque decisivo ao crime. A Aeronáutica perscrutava os céus para fornecer informações sobre o inimigo. As forças oficiais ocupariam as favelas, expulsariam os traficantes e a partir daí o combate ao crime seria permanente.

É preciso enaltecer a bravura com que soldados e civis se conduziram no desempenho de sua missão. A televisão mostrou cenas convincentes da coragem e desprendimento com que cumpriam ordens. Mas o que não ficou claro foi o “conceito” da operação. Teria sido planejada com base numa política de segurança pública? O estado dispunha de uma política de segurança pública? Não parece. Do contrário o tráfico não teria alcançado o poder que tem hoje e as milícias não se teriam criado.

Sejamos francos. Essa operação não foi mais do que uma resposta ao gesto insensato dos traficantes que, num surto de burrice, resolveram sair pela cidade incendiando carros e ônibus. Apenas uma represália ao governo pela transferência de presídio de alguns chefes do tráfico. Uma demonstração de força que humilhou governantes e cidadãos. Ou não foi isso que aconteceu? Era preciso conter o vandalismo nas ruas e dar uma resposta à opinião pública. E sem a ajuda do Exército o Estado seria derrotado.

As televisões, ficaram 24 horas no ar, glorificando a ação, dando-nos a entender que o combate ao crime agora é pra valer. Balela. Em nenhum momento se questionou se aquilo levaria a algum lugar. Nenhuma palavra sobre as milícias, os acordos espúrios, os conflitos entre os diversos órgãos e seu espírito de corpo.

Escrevi tudo isto por dois motivos: primeiro, porque gostaria de me ver contestado; segundo, porque encontrei um bom motivo para divulgar o comentário escrito naquela ocasião por Luiz Eduardo Soares*.

O Jornal Nacional, nesta quinta, 25 de Novembro, definiu o caos no Rio de Janeiro, salpicado de cenas de guerra e morte, pânico e desespero, como um dia histórico de vitória: o dia em que as polícias ocuparam a Vila Cruzeiro. Ou eu sofri um súbito apagão mental e me tornei um idiota contumaz e incorrigível ou os editores do JN sentiram-se autorizados a tratar milhões de telespectadores como contumazes e incorrigíveis idiotas.
Ou se começa a falar sério e levar a sério a tragédia da insegurança pública no Brasil, ou será pelo menos mais digno furtar-se a fazer coro com a farsa.”
                                                                                               Luiz Eduardo Soares

*Luiz Eduardo Soares escreveu o livro “Meu Casaco de General”, que deveria ser leitura obrigatória para todos os eleitores deste país.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Oba! O Luigi Voltou !



Claudia Bontempo
Alguém já me disse que preciso ser mais pragmática e deixar as emoções de lado, divagar menos, agir. Concordei, pois concordo com tudo que me tire a dor física que sinto com a saudade, a vontade de chorar a toa, o encanto com bobagens, o arrepio no corpo inteiro quando me emociono. Acontece que isso não é uma fórmula de bolo e não existe uma varinha de condão que faça eu parar de sentir tão intensamente.

Ontem revi o querido Luigi, que não via há algumas semanas devido à tragédia das chuvas de verão na região serrana do Rio de Janeiro. Estive em contato com ele durante o período crítico (graças aos recursos midiáticos) e sabia que estava bem. No entanto, quando o vi, ao vivo e a cores, ao meu lado, fiquei com vontade de lhe dizer o quanto a sua presença me fez falta . De como eu estava satisfeita de poder ouvir a sua voz, ver o seu rosto e de como admiro o seu jeito de ser.

Volto a escrever no blog , ainda que com um texto um tanto cambaleante. Mas sabendo que meu amigo está na área de novo, vou tentar ser mais pragmática e tocar a vida em frente. Mesmo não me contendo de tanta felicidade com o retorno do Luigi, afinal estou tentando...